No início do mês, o presidente americano, Donald Trump, anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Ao fazer isso, ele prometeu negociar um retorno ou um novo acordo climático em termos que considere mais justos para os americanos. O presidente justificou a saída alegando que o acordo traz desvantagens para os Estados Unidos e beneficia outros países.

A reportagem da FOLHA conversou com a gerente de Clima do WRI Brasil, Viviane Romeiro, para analisar essa decisão. O WRI (World Resources Institute) é uma das entidades que compõem o Observatório do Clima, uma coalizão de organizações da sociedade civil brasileira para discutir mudanças climáticas. Romeiro destacou que a saída americana tornou mais difícil o cumprimento das metas estabelecidas no acordo e ressaltou a importância de os países se unirem para implementar mais medidas para reduzir a emissão de poluentes.

Os Estados Unidos entraram para o grupo dos países que rejeitaram o Acordo de Paris, ao lado da Síria e da Nicarágua. O resto do mundo, que se mantém fiel ao acordo, tem como contornar a saída americana e cumprir as metas estipuladas no documento?
A chance de estabilizar o aquecimento global em até 1,5% (acima dos níveis pré-industriais), que é o objetivo mais ambicioso do acordo, fica praticamente fora de alcance, só que isso independe da saída americana, porque o principal problema é que, para ter uma chance de atingir metade dessa meta de 1,5%, os Estados Unidos e todos os países partícipes precisariam fortalecer e ampliar a ambição de reduzir as emissões de poluentes nos próximos anos. O desafio agora é muito maior. A meta de limitar o aquecimento bem abaixo de 2ºC está em risco, mas ainda não está necessariamente descartada. É importante que os países agora se juntem e se fortaleçam para implementar ainda mais medidas de redução de poluentes.

Mas o que os outros países podem fazer para tornar essa meta atingível?
Novas coalizões de Estado e de cidades devem ser realizadas e o papel de instituições sobrenacionais estará ainda mais destacado. As empresas, por exemplo, poderão ajudar a preencher essa lacuna. Esse processo da administração Trump decepciona em um momento que é muito crítico, mas em paralelo países como a China, Índia, União Europeia e muitos outros têm deixado claro que estão na liderança para uma despoluição da economia.

Como?
Com a saída de Trump, o efeito que tem se observado é um tsunami de apoio ao Acordo de Paris. Há maior comprometimento dos países sobre o acordo climático. É uma oportunidade, por outro lado, para esse fortalecimento do acordo e de empresas sobrenacionais. No início do ano, a China anunciou um investimento de 370 bilhões de dólares em energia renovável nos próximos três anos. Pretendem criar 3 milhões de empregos. Outros países também se direcionam para aproveitar as oportunidades econômicas geradas pela descarbonização. Essa coalizão e o fortalecimento de outras parcerias de governos sobrenacionais, cidades e empresas certamente desempenharão um papel bem importante.

Governos estaduais e prefeituras americanas reagiram ao anúncio de Trump dizendo que seguirão cumprindo os termos do acordo. Qual é o peso do governo federal e das gestões estaduais e municipais americanas nas ações para a redução de emissão de poluentes? E das empresas?
Nos Estados Unidos, uma pesquisa do WRI mostrou que, se todos os americanos que fossem favoráveis ao Acordo de Paris fossem um país, seriam a quinta maior economia do mundo. Embora não sejam substitutos, obviamente, à administração federal, é um indicativo e uma sinalização de que os Estados Unidos também continuarão a desempenhar um papel importante de liderança para avançar na agenda climática, independente da administração Trump. Estados americanos como a Califórnia, por exemplo, já afirmaram que manterão as suas metas de redução. Nova Iorque, New Hampshire e Massachusetts também planejam reduzir suas emissões até 2050 em aproximadamente 80% em relação aos índices de 1990. Há outros dados que apontam que mais de 50% dos americanos que elegeram Trump são favoráveis à permanência dos Estados Unidos no acordo, ou seja, mais da metade apoia a política atual de energias renováveis.

Mas quais as consequências imediatas da saída dos Estados Unidos do acordo?
Só para deixar claro, a saída do Trump não implica no fim do Acordo de Paris, que entrou em vigor no dia 4 de novembro de 2016 e já foi ratificado por 147 países, inclusive pelos Estados Unidos. Essa saída dos Estados Unidos não tem efeito retroativo sobre a entrada em vigor, pelo menos do ponto de vista formal. Para sair dele, tem que ter aviso prévio de três anos e durante esse período diplomatas americanos podem continuar participando das reuniões, mas não terão influência decisória. Uma implicação é que as suas contribuições se tornam voluntárias. Esse processo de saída tem efeito muito mais psicológico de desacelerar avanços internos da agenda da convenção do clima e atrapalhar alguns avanços que poderiam ser obtidos.

Há risco de outros países seguirem os Estados Unidos e saírem do acordo, alegando os mesmos motivos?
Isso com certeza é uma preocupação. Há sempre o risco de enfraquecer alguns itens das negociações. A gente já vê manifestações da Rússia e das Filipinas nesse sentido. Mas o principal impacto é muito mais psicológico. Muitos países que foram convertidos às causas das mudanças climáticas quando assinaram o acordo podem deixar de tratar o tema como uma grande prioridade. Ainda que se mantenham no acordo, há a possibilidade de que eles permaneçam, mas diminuam a sua liderança.

O Observatório do Clima divulgou uma lista contestando os argumentos de Trump para a saída do acordo. Na sua opinião, quais são os "fatos alternativos" mais equivocados apontados pelo presidente?
Eu acho que o principal "fato alternativo" é a questão das oportunidades econômicas. Trump acredita que o investimento em tecnologias não renováveis já defasadas traria mais oportunidades, mas a principal contradição disso é a promessa de criação de oportunidades de trabalho. Essa é uma das maiores inconsistências dos argumentos do Trump para a sua saída do acordo. Ao contrário do que ele diz, investir na escassez de inovação, como no carvão, é ir contra uma tendência global. A própria China entendeu bem esse papel e está na liderança desse setor porque entendeu que é uma oportunidade econômica muito forte. Esse vácuo que ele deixa, com os argumentos de recrudescimento da economia americana, não se sustenta. Vários relatórios indicam o crescimento do emprego e a competitividade internacional que a economia baseada na energia renovável gera, que é muito maior que o emprego em tecnologias não renováveis.

Trump diz que a permanência dos Estados Unidos no acordo custaria 2,7 milhões de empregos americanos até 2025. Esses números estão corretos?
A visão dele de desenvolvimento tecnológico ainda é do século passado. A geração de emprego é muito maior para as energias renováveis. Hoje, a geração de emprego no setor de energia eólica, energia solar fotovoltaica é crescente e a geração de empregos por esse setor ultrapassa os gerados na economia baseada no carvão e no petróleo. É uma tendência exponencial. Os empregos no setor de energia não renovável, como o carvão, estão escassos e há um arcabouço regulatório e ambiental favorável à adoção das energias renováveis.

Qual o reflexo da saída do Acordo de Paris para os americanos?
A administração Trump está jogando fora vários avanços importantes não só em relação à política local ou nacional, mas também em relação à diplomacia, uma liderança internacional que os Estados Unidos exerciam e que pode ser enfraquecida. A China é o maior emissor de gases do efeito estufa e já ultrapassou os Estados Unidos como maior investidor em energias renováveis do mundo. Ela certamente já está preenchendo o vácuo de liderança deixado pelos Estados Unidos.

O Brasil condenou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, mas o que está fazendo para cumprir sua parte?
Há um discurso que não está acompanhando a prática. O governo brasileiro criticou a saída do acordo, mas não vem adotando os avanços da agenda ambiental. Quando Trump anunciou a saída do Acordo de Paris, os ministérios das Relações Exteriores e do Ambiente publicaram nota manifestando a necessidade de esforço e comprometimento com as mudanças climáticas, mas na prática a gente vê que esse discurso não acompanha as ações de política climática. Não temos encontrado respaldo nessa retórica do governo. As medidas provisórias que retiram a proteção de 5 mil hectares em unidades de preservação da Amazônia é um exemplo. A própria taxa de desmatamento da Amazônia é preocupante. Há uma tendência crescente de desmatamento desde 2014. Isso pode afastar investimentos e pode chamar a atenção do mercado externo, que pode desconfiar da competência do Brasil de cumprir suas obrigações.

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