Aprender com os outros é sinal de inteligência
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de abril de 2016
Henrique Gambaro Vieira 
No dia 21 de março, em um jornal de grande circulação nacional, li uma reportagem que me assustou: "Projeto que limita gasto vai prever demissão voluntária de servidor". Ele fala sobre um projeto do governo federal que tem por objetivo limitar os gastos públicos a fim de equilibrar as contas da União. É louvável que o governo faça sua tarefa e ajuste suas contas; o problema é "como" ele quer fazer isto. A primeira opção é suspender o aumento salarial dos servidores, restringir a ampliação do quadro de pessoal e diminuir gastos discricionários. A segunda opção, corte no salário dos servidores públicos em 30%.
Como professor, sempre indiquei aos meus alunos que devemos aprender com os erros dos outros, analisando as ações e os resultados e assim diminuindo as possibilidades de fracasso.
Entre o fim do ano de 2015 e início de 2016, passei quarenta dias estudando em uma grande universidade do interior de Portugal como bolsista do Programa Ibero-Americano Santander para Professores Pesquisadores. Minha área de pesquisa são as Teorias Organizacionais; busco por meio das relações de trabalho entender o papel do ser humano, suas motivações e o seu desenvolvimento através das tarefas que executa no dia a dia. Estive em Portugal para entender as "medidas de austeridade" aplicadas no país e as reações dos trabalhadores, ou seja, dos servidores públicos portugueses.
Essas medidas que o governo português impôs à sua população também tiveram o objetivo de "ajustar" contas diante da crise econômica que assolou a Europa, somada aos devaneios dos governos anteriores com o oferecimento desmedido de créditos, história muito parecida com a nossa nesses últimos anos.
O que constatei foi um cenário amargo. Não tendo outro caminho, ou indo em direção à saída mais fácil, o governo seguiu os conselhos do Banco Central Europeu e fez o impensável: cortou em aproximadamente 20% os salários dos servidores públicos daquele país. Minha pesquisa foi orientada para descobrir as consequências dessa decisão na vida dos trabalhadores.
Muitos apontaram que o governo "rasgou" a constituição e a legislação trabalhista, onde se assegura a não redução de vencimentos dos trabalhadores (como também acontece no Brasil). Mas a nefasta estratégia utilizada não foi redução de salários e sim a criação e o aumento de impostos para esses salários.
Entrevistei alguns funcionários públicos da área de Educação e o que vi foram pessoas desmotivadas. Muitos dos bons funcionários saíram, foram trabalhar em outros países, como a Alemanha e a Holanda. O desânimo é geral. Essa medida de austeridade baseada no corte salarial envenenou o sistema de educação, desmoralizou o trabalhador, piorou o atendimento à população e diminuiu a motivação.
Também é preciso apontar que essa estratégia afetou de maneira significativa a economia, reduzindo o poder de compra desses trabalhadores. Vi professores que tiveram que reduzir a utilização do aquecimento em suas residências, funcionários públicos que tiveram que vender suas casas, pessoas que tiveram seus bens comprometidos com dívidas agora impagáveis pela situação atual do país. O que medi e evidenciei por meio de minha pesquisa foram os sentimentos de frustração, impotência, indignação e raiva desses servidores. Um dos professores que entrevistei talvez tenha resumido em uma frase toda a situação: "O povo português está triste, desanimado. Os bons estão saindo e não podemos fazer nada... nada! O que será de nós? Me preocupo com o dia de amanhã".
E aqui no Brasil? Parece que o movimento da economia está indo para o mesmo lado. Espero que os responsáveis por essas decisões estudem, analisem e aprendam com os erros de quem já fez. Cortar salário, ou aumentar os impostos do funcionalismo público, não ajuda ninguém a sair da crise. Esse tipo de estratégia afunda ainda mais a moral dos que trabalham e produzem, retira o dinheiro da economia e diminui o consumo. Aprender com o erro dos outros não é uma vergonha... é sinal de inteligência.


