As letras são ao mesmo tempo mistério e sonho para muitos brasileiros que não sabem ler. Placas, livros, revistas, tudo é visto como uma imagem indecifrável e distante. Escrever o próprio nome faz parte de uma fantasia e a impressão digital é a única maneira de atestar documentos. Essas características faziam parte da vida de dona Dair Helena Silva Gouveia, 46 anos, até o início deste ano. Mas, pouco a pouco, o alfabeto começa a fazer sentido. Ela já escreve o próprio nome, ainda não com as mãos, mas através das teclas de um computador.
Dona Nair faz parte do programa 'Luz das Letras', desenvolvido pela Associação da Criança e do Adolescente de Londrina (Acalon), que atende os pais que têm filhos estudando na Escola Oficina, administrada pela Acalon. Com auxílio de um software desenvolvido pela Copel, Dona Dair aprendeu a escrever o próprio nome. ''Meu maior sonho é aprender a ler e escrever'', diz com sorriso nos lábios e olhos voltados para cima, como quem pede ajuda aos céus para alcançar seus objetivos.
A vida de dona Dair Gouveia não foi fácil. Aos oito anos ela já trabalhava na roça para ajudar o pai a sustentar seus oito irmãos. Aos dezoito anos, ela se casou e vieram os filhos, doze, o mais novo tem hoje nove anos e a mais velha, 28. Com tanta criança para cuidar, os estudos ficaram mais uma vez para trás. ''Teve momentos em que não tinha o que comer e a gente fazia mingau de polenta'', recorda.
Mas hoje, com filhos casados, alguns já falecidos, e apenas dois sob sua proteção, dona Dair pôde finalmente começar o caminho para a concretização de seu sonho. ''Eu nunca tive felicidade na vida, mas hoje as coisas mudaram'', declara. Três vezes por semana ela vai até a escola e se dedica sem medir esforços, ''Pode estar com tempo de chuva mas eu não falto'', diz orgulhosa. Sobre a alegria de ver o nome escrito pela primeira vez, ela se emociona, ''é uma surpresa que nem dá para dizer, o suor chega a escorrer''.
O computador ainda é uma barreira a ser ultrapassada, ''na frente do computador o bicho pega. Tenho medo de estragar as coisas porque não tenho condições de pagar'', confessa. Dona Dair traz esse medo desde que uma pessoa disse a ela que nunca conseguiria realizar seu sonho, mas a força foi maior e ela foi em frente, ''tenho grande vontade de vencer na vida'', expõe.
O que levou dona Dair a vencer o medo foi a vontade de dar um futuro melhor para seus filhos, que, segundo ela, estão estudando também. ''Hoje em dia as coisas estão muito difíceis'', argumenta. Há uma ano ela mora em casa própria e agora falta finalizar a alfabetização para o sonho virar realidade: ''ser feliz e honesto é o que importa'', finaliza.
O Luz das Letras é desenvolvido pela Acalon em parceria com a Sercomtel e existe desde julho de 2001. A coordenadora Eliana Vilas Boas Faria explica que a pessoa utiliza o computador para escrever mas também trabalha na mesa com lápis e papel. ''O computador é um atrativo. Às vezes eles ficam com medo mas a medida que vão dominando a máquina, a auto-estima aumenta muito'', diz.
Além de alfabetizar, o programa ensina matemática e conhecimentos gerais. Ao final, o aluno faz uma prova e sai com diploma de 1 a 4 série. Este ano os primeiros alunos fizeram a prova. Os resultados ainda não sairam mas Eliana Faria aposta na aprovação dos quatro ''formandos''. O tempo para concluir o Luz das Letras depende dos conhecimentos que cada um traz, ''alguns não tem noção de nada, outros sabem ler mas não conseguem escrever'', exemplifica. Oito pais participaram do programa este ano e para 2003, o pai que tiver aluno na Escola Oficina e interesse em aprender pode se inscrever.

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