Aprendendo com a crise
O Brasil mudou. Se para melhor ou pior é outra coisa, mas ele está diferente. Vejamos: a Fifa acaba de anunciar que perdemos o honroso posto de melhor seleção de futebol do mundo. Não sei se isto apenas demonstra a desorganização que está o futebol em nível mundial, uma vez que a instituição que coordena a prática do esporte demorou, no mínimo quatro anos para perceber a nossa decadência.
Shere Hite, a escritora e sexóloga norte-americana que abalou as estruturas da moral e bons costumes da pátria-amada, em 1976, ao lançar seu primeiro best seller O Relatório Hite que tratava da questão da sexualidade feminina, quando esteve no Brasil afirmou que o País havia evoluído. Explico aos mais jovens: naqueles tempos, o Brasil vivia sob as ordens do regime militar, quando a Sra. Hite pisou por aqui com teorias revolucionárias que incentivavam as mulheres a lutar contra o machismo latino-americano. Quase foi presa e deportada. Depois de um quarto de século, ela volta e encontra o presidente da República, eleito e reeleito pelo voto direto, sancionando uma lei que transforma o assédio sexual em crime. Sem dúvida, mudamos.
Na política, também evoluímos. O senador Antonio Carlos Magalhães, o último dos coronéis do sertão, vê-se na iminência de renunciar ao mandato para não ser cassado; outro, José Roberto Arruda, até há poucos meses líder do governo na Casa, já renunciou. Na sede da Polícia Federal, em São Paulo, um juiz está preso pelo desvio de mais de R$ 169 milhões e levou a reboque, outro senador, Luiz Estevão.
Aliás, a queda de ACM e Arruda deu-se, justamente, porque ambos mentiram sobre a violação no painel do Senado, na sessão que cassou Estevão. É pouco? Sim, é muito pouco pelo mar de lama que quase afoga a Nação, mas não deixa de ser um alento.
Cinco séculos de história foram insuficientes para mostrar às nossas elites que a tigrada cansa de levar chibatada no lombo e uma hora a casa cai. Desde Caminha, nos primórdios do descobrimento, os amigos do rei se fartam das benesses oficiais, para si e para os seus, sem medir consequências. Afinal, são amigos do rei.
Para eles, a res publica não visa mais servir aos interesses comuns da maioria, mas, numa réplica das capitanias hereditárias, transformou-se num gigantesco condomínio, onde se divertem nos banquetes da Casa Grande, ou na Ilha Fiscal, enquanto o povão se engalfinha nas filas do desemprego, na falência dos hospitais públicos ou por detrás dos escudos invisíveis para escapar de balas perdidas na violência generalizada.
Mas como se diz no jargão popular, pau que nasce torto morre torto, o presidente do Senado, Jader Barbalho, parece não ter entendido o recado das ruas e no estilo sabe com quem está falando? insiste em fazer valer o espírito de corpo: concedeu mais 15 dias úteis, algo como 3 semanas, para a Mesa do Senado decidir se acata ou não a provável recomendação de abertura de processo.
É tudo no condicional. Mas não importa. De fato, há males que vêm para o bem. Como lembrou o jornalista Mino Carta em recente editorial, mesmo não sendo entendida por todos em seu espectro mais amplo, esta crise imponente estimula dúvidas, atiça percepções, afina espíritos e aclara consciências.
Esse País mudou, queiram eles ou não. Só não vê quem não quer ou insiste em não abrir os olhos. Depois, não venham dizer que foi culpa do apagão.
- RENÉ RUSCHEL é economista, graduado e pós-graduado pela UFPR





