É profundamente deplorável que o PSDB, partido do presidente Fernando Henrique Cardoso, tenha chancelado, através do Instituto Teotônio Vilela, a coleção de 15 volumes ‘‘Sociedade e História do Brasil’’, organizada pelo professor paulista Marco Antonio Villa, onde se insere que João Goulart era um ‘‘banana’’ e por isso sobreveio o movimento de março de 1964.
Muito ao contrário, a história que será escrita no futuro, mais longe dos acontecimentos da década de 60, registrará a coragem e o patriotismo do presidente João Goulart, por ter evitado duas vezes (1961 e 1964) o derramamento de sangue entre os brasileiros.
Em 1961, tornara-se irresistível a mobilização cívica pela posse do vice-presidente João Goulart, liderada pelo governador gaúcho Leonel Brizola, que recebeu o apoio do general Machado Lopes, comandante do poderoso 3º Exército (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) e de oficiais militares de outras regiões. Generalizou-se o repúdio ao veto dos três ministros militares à investidura de Jango, exigindo-se obediência ao preceito constitucional.
No entusiasmo da vitória certa da causa legalista, muitos queriam reviver a Revolução de 1930, que partiu do Rio Grande do Sul e chegou triunfante ao poder central, na capital da República. João Goulart mostrou grandeza ao acatar a fórmula conciliatória do parlamentarismo, votada pelo Congresso e aceita pelos ministros militares, que lhe foi levada a Montevidéu por Tancredo de Almeida Neves.
Repetiu-se a intrepidez de Jango ao enfrentar a multidão reunida em torno do Palácio Piratini, em Porto Alegre (sua primeira escala no Brasil depois de longa viagem à China Comunista onde se encontrava em missão do governo), que bradava contra o arranjo político artificial e exigia marchar para Brasília. João Goulart manteve sua posição e rejeitou a guerra civil e o confronto bélico entre compatriotas.
Novamente, em 31 de março de 1964, o presidente João Goulart se houve com bravura e bom senso ao colocar os interesses do Brasil acima dos seus, preferindo perder o cargo de chefe da Nação e evitar a pugna de conterrâneos, dentro de perigoso cenário mundial de ‘‘guerra fria’’ (Estados Unidos versus União Soviética). A Aeronáutica lhe era fiel, mas ele não autorizou o bombardeio das tropas do general Mourão Filho, que se deslocavam de Minas para o Rio de Janeiro. Assim procedeu, não por covardia mas por perceber que resistir seria inútil e o solo brasileiro poderia transformar-se em novo Vietnã.
O professor San Tiago Dantas, baseado em fontes seguras, lhe informara, no Palácio Laranjeiras, que os Estados Unidos reconheceriam como legítimo e legal o governo revolucionário instalado em Minas Gerais pelo governador Magalhães Pinto e que as belonaves norte-americanas (trazendo combustível e armamento) já estariam se deslocando para Santos.
Jango ainda viajou do Rio a Brasília na tentativa de uma solução política da crise e de lá a Porto Alegre, onde o general Ladário Telles, comandante do 3º Exército, nomeado no dia anterior, tinha assumido o comando e tomado conta da situação. Em reunião com o general Ladário e seus oficiais, presente o ex-governador Leonel Brizola e outros políticos, João Goulart teve a coragem de recusar as sugestões de nomear Ladário para ministro da Guerra e tentar a resistência, com apoio de boa parte de Brigada Militar e de contingentes populares. Jango preferiu o exílio à luta fratricida. Por sinal, ele respeitou estritamente as regras diplomáticas do exílio, abstendo-se de qualquer atividade política.
Goulart governou com total liberdade de imprensa e plenitude democrática e meritoriamente reuniu na sua equipe de governo luminares da inteligência e da cultura nacionais, como San Tiago Dantas, Evandro Lins e Silva, Waldir Pires, Hermes Lima, Darcy Ribeiro, Paulo de Tarso, Carvalho Pinto, Celso Furtado e outros. Ele praticou atos revestidos de grande significado e sadio nacionalismo, como estender o monopólio da Petrobras à importação de petróleo e derivados, disciplinar e taxar a remessa de lucros das empresas estrangeiras, coordenar a aprovação parlamentar e sancionar a lei que criou a Eletrobrás, proposta enviada por Getúlio ao Congresso em 1953. Coube-lhe sancionar a lei, de profundo alcance social, que implementou o 13º salário.
João Goulart não se intimidou em arrostar os reacionários na sua indormida e frustrada ação governamental para implantar a reforma agrária. Já no Uruguai, ele mostrou desassombro ao ‘‘apoiar os chefes militares em uma devassa séria na identificação da origem dos bens de todos os políticos, cujas fortunas são objeto de suspeitas’’, palavras da sua entrevista concedida em Montevidéu à revista ‘‘O Cruzeiro’’, dos Diários Associados, publicada em 2 de maio de 1964. O resultado das rigorosas apurações confirmou a honradez de João Goulart, que não sofreu qualquer confisco de bens e tampouco nenhuma condenação por improbidade.
Enfim, a vida pública de João Goulart, o único presidente da República que morreu exilado, está repleta de atitudes intimoratas, que contrastam com a pecha de ‘‘banana’’, carimbada pelo historiador do PSDB, que também ousou reinterpretar a história do Brasil, questionando o papel de Tiradentes e a relevância da Inconfidência Mineira e desqualificando a famosa frase nacionalista do presidente Floriano Peixoto: ‘‘Serão recebidos à bala’’.
Respondendo na imprensa a críticas do deputado federal Aldo Rebelo, o professor Villa aludiu a ‘‘heróis produzidos pela classe dominante’’ e que ‘‘só faltou sair em defesa do Duque de Caxias’’. Será que ele também desacredita terem a espada e a condescendência do Duque de Caxias assegurado a coesão do País no período imperial e que Getúlio Vargas e a Revolução de 30 garantiram a unidade nacional, no século 20?
Oxalá, nos dias porvindouros do Brasil, venha a surgir um líder capaz de comandar a luta do povo na defesa da soberania nacional e da integridade de nosso território na Amazônia, alvo de crescente ameaça e cobiça internacional.
- LÉO DE ALMEIDA NEVES é suplente de senador pelo Paraná, ex-deputado federal e ex-secretário-geral nacional do antigo PTB

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