Recordar é viver. Morreu Herbert José de Souza. Fica a memória solidária e generosa de Betinho. Um apóstolo do bem, em um tempo em que a virtude parece merecer o conceito de banalidade do mal. Frei Beto, instantes após a sua morte, leu o ‘‘Sermão das Bem Aventuranças’’, do Evangelho de São Mateus, traduzindo como verdadeiro amor cristão o que foi a passagem de Betinho por esse mundo temporal. Combater a fome, a violência, o desemprego, a injustiça social foi o caminho que escolheu, pagando um alto preço para lutar por toda uma vida. Morrendo, deixou um exemplo que não pode ser esquecido: a solidariedade para com o próximo.
Nos últimos anos, vivendo um combate permanente contra a morte, Betinho abriu cabeças, percorreu os caminhos da esperança com incontida alegria de viver. Tornou-se quase uma unanimidade nacional. Mas nem sempre foi assim. O historiador Rubem César Fagundes numa síntese perfeita disse: ‘‘Betinho conseguiu a proeza de juntar duas tradições que nunca se misturam: a caridade e a cidadania. A primeira sempre foi vinculada à religião e a segunda, ligada à política’’.
É desse Betinho militante que vou falar. Numa sociedade sem memória como a nossa, é sempre oportuno relembrar a história. Conheci Herbert José de Souza em Belo Horizonte, em 1962. Era um encontro nacional que reunia os militantes da JUC (Juventude Universitária Católica), da JEC (Juventude Estudantil Católica) e da JOC (Juventude Operária Católica) de vários Estados brasileiros. O padre Henrique Lage, anfitrião do encontro, tinha no Frei Henrique Vaz, superior jesuíta de Friburgo e uma das mais extraordinárias inteligências que conheci, o grande teórico daquele evento histórico que se celebrava na capital mineira. Nascia a AP (Ação Popular), um movimento cristão de esquerda que iria ter nos anos seguintes um papel fundamental na vida política brasileira.
O grande documento que fundamentava a criação da AP teve em Betinho o seu principal redator. Aldo Arantes, hoje deputado federal, era o presidente da UNE, sucedido por Vinicius Caldeira Brant e este por José Serra. Até o golpe de 64. Todos militantes e fundadores da Ação Popular. Mas não apenas no movimento estudantil, igualmente no movimento trabalhista, nas cátedras universitárias e no pensamento intelectual brasileiro o movimento estruturou-se e consolidou-se. Em São Paulo, Frei Carlos Josaphat, dirigindo o seminário ‘‘Brasil, Urgente’’, alargava o debate sobre a necessidade das reformas de base que o Brasil exigia. Era tempo de esperança.
Betinho, como assessor do ministro Paulo de Tharso, da Educação, no governo de João Goulart, percorria o país agregando companheiros e consolidando um caminho para a construção de um Brasil mais justo, digno e decente para a nossa gente. O golpe de 64 obstruiu o caminho. Quase todos os fundadores da AP foram obrigados a buscar o exílio. Padre Lage foi para o México, Frei Josaphat, para a Bélgica, Betinho, para o Uruguai e tantos e tantos outros. Em 1965, Betinho voltou clandestino ao Brasil, indo trabalhar como operário em Santo André, com identidade trocada. Nessa ocasião, disse: ‘‘Tive vários exílios. O exílio interno foi uma esquizofrenia. É estar em seu país e ser estrangeiro’’.
Em 66, exilou-se no Chile. Lá estavam Fernando Henrique, José Serra e Francisco Weffort. Com o golpe de Pinochet exilou-se seguidamente no Panamá, no Canadá e no México. Voltou ao seu país 13 anos depois, com a Anistia. E continuou pregando a mesma pregação da solidariedade da preocupação ética para que todo brasileiro tivesse o que comer todo dia.
Sua morte empobrece o Brasil, tão carente de valores humanistas. D. Mauro Morelli sintetizou: ‘‘Ele deixou o legado de que a vida vale a pena ser vivida para que possamos ajudar o nosso semelhante’’. Esse Betinho jamais morrerá. Viverá pelos tempos como exemplos a se seguir. Faço minhas as palavras de Sérgio Motta, militante ativo da AP, nos tempos autoritários: ‘‘Cai uma lágrima minha agora. Perdi um amigo com quem fui militante e de que fui companheiro’’.

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