Aposentado há sete anos, João Gonçalves da Silva, 73 anos, não conseguiu encostar o carrinho de cachorro-quente que durante três décadas garantiu o seu sustento. Divorciado, Silva mora sozinho numa casa alugada na área central de Londrina. Recebe dois salários mínimos da Previdência Social e precisa trabalhar de segunda a sábado, das 6 às 20 horas, para complementar o valor pago pelo INSS. ''Como vou pagar o aluguel, as contas, comer e comprar remédios?'', pergunta o mineiro, que abandonou o sonho de um dia ter um sítio.
O lancheiro já fez uma cirurgia na garganta e enfrenta problemas com uma das pernas. Mesmo com dificuldades encontra forças para empurrar o carrinho e preparar os lanches no centro da cidade. ''Não posso parar de trabalhar senão não vivo'', diz ele. Questionado sobre o valor ideal da aposentadoria, Silva acha que com R$ 600,00 poderia viver sossegado. ''Agora estão falando que os juízes querem se aposentar com R$ 15 mil? Isso é muito dinheiro! Eu vivo com R$ 300,00. Isso é dinheiro para 'enricar', comprar fazenda, sítio'', diz o vendedor, sorriso tímido nos lábios que expõe cacos de dentes.
O zelador Edgard Nunes Pereira, 68 anos, casado, quatro filhos, mora em um apartamento cedido por um dos filhos no centro da cidade. Ele se aposentou com 30 anos de trabalho, com dois salários mínimos e passou a receber 70% do valor. Continuou trabalhando como zelador. ''Não dá para sobreviver com o que o INSS paga'', justifica. Sobre a pressão exercida pelos magistrados, que chegaram a ameaçar entrar em greve, Pereira entende que os juízes precisam ter bons salários e garantir uma boa aposentadoria para não serem contaminados no país da corrupção.
Inconformado com a situação criada pela Previdência Social, Luiz Pinheiro, 83 anos, morador no Conjunto Rui Virmond Carnascialli, zona norte, acha que qualquer cidadão tem direito de se aposentar com o valor que for, desde que não precise passar pela problema que ele enfrenta há 20 anos. Pinheiro trabalhou em empresa de transporte de passageiros, exerceu cargo de chefia, atuou em condomínios e se aposentou com 5 salários mínimos. ''Mas pouco tempo depois me roubaram'', lembra.
Sentindo-se injustiçado, o aposentado conta que pouco tempo depois de receber o benefício, a Previdência Social reduziu o valor pago, que passou a corresponder a 2,5 salários mínimos. ''Cortaram pela metade sem qualquer justificativa'', afirma Pinheiro, que não desistiu de lutar por seus direitos. Ele foi atrás de advogado, que impetrou ação requerendo a aposentadoria integral. Há 13 anos a Justiça Federal determinou que o INSS pagasse a diferença e corrigisse o valor, segundo Pinheiro. ''A diferença foi paga mas o valor não foi corrigido até hoje'', ele cobra.
A Previdência Social obriga o aposentado a continuar trabalhando aos 83 anos. ''Tenho que pagar plano de saúde e não posso entrar no mercado e sair com as mercadorias sem pagar'', diz, indignado com a situação. ''Entra governo, sai governo e a ladroagem no INSS continua. Meteram a mão na minha aposentadoria e na de muitos outros aposentados que conheço. Ninguém fez e nem vai fazer nada. Não é para ficar louco de raiva?'', ele pergunta, coberto de razão.

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