A Previdência Social está usando das mesmas técnicas publicitárias que nós, publicitários, utilizamos para lançar, divulgar e propagar as qualidades de um produto ou serviço, além de ''catequizar'' e induzir os consumidores a comprarem uma ideia ou um conceito. Neste caso, são os chamados ''teasers'' repetitivos divulgados por meio da mídia, para ''fazer a cabeça'' dos aposentados, sempre na mesma época do ano. Isto é, poucos meses antes do obrigatório reajuste anual dos chamados ''benefícios'', uma nomenclatura absurdamente infeliz para a devolução de direito das aposentadorias aos sobreviventes de décadas de labuta, que pagaram antecipada e compulsoriamente seu suado dinheirinho para os cofres do Estado.
Pois não é que novamente, mais uma vez, a Previdência ''confirma deficit de R$ 4,936 bilhões em agosto, um saldo negativo 90,4% superior ao registrado em julho e 19,3% maior que o do mesmo mês de 2011''?
Essa é uma tática de guerrilha contra os pobres aposentados, para os quais não têm a menor importância se o saldo foi, está ou será negativo ou positivo. Aposentadorias são um dever do Estado para manter vivos - de preferência com muita dignidade - os cidadãos que pagaram pela garantia do seu futuro.
É muita cara de pau do governo federal voltar anualmente à mídia com essa mesma argumentação. Se o caixa da Previdência é deficitário, que se faça um controle mais rigoroso no número (jamais divulgado em sua totalidade) daqueles funcionários públicos ''aspones'', ''gepones'', apadrinhados, protegidos e incompetentes. Que se controle os ralos da corrupção, que principiam nos próprios ministérios e se espalham por todos os segmentos ligados ao governo - estatais, ONGs protegidas, secretarias, entidades esportivas, etc.
Que se faça uma apurada auditoria na exorbitante verba publicitária e nos patrocínios distribuídos a rodo para comprar a cumplicidade da mídia e de estados e municípios. Que fechem ministérios e secretarias criadas apenas para obter apoio político e que sugam do Estado verbas inúteis e improdutivas. Que se distribua ao brasileiro os frutos da exploração do petróleo, do pré-sal (o ex-presidente Lula não prometeu que o pré-sal tornaria o Brasil um dos países mais ricos do mundo?) e dos impostos escorchantes. Que se controle os chamados mensalões, mensalinhos e malandragens correlatas. Que se exerça um rígido controle nas licitações de obras e as tais ''situações emergenciais'' que fazem a festa das empreiteiras e dos licitadores.
No Supremo Tribunal Federal, que está julgando o chamado mensalão, tivemos a grata surpresa de ouvir o decano Celso de Mello proclamar um dos votos mais duros até agora contra os acusados, afirmando com todas as letras que os acusados eram ''marginais do poder e formaram uma quadrilha de verdadeiros assaltantes dos cofres públicos''. O ministro condenou as práticas de parlamentares corruptos, ''altos dirigentes do Poder Executivo e de agremiações partidárias'' que ''transformaram a cultura da transgressão em prática ordinária e desonesta de governo''.
Se houvesse honestidade, seriedade de gestão e um mínimo de ética, talvez a Previdência Social jamais fosse obrigada a voltar à mídia para alardear seus prejuízos. Os aposentados não têm nada a ver com isso. Nós queremos a reposição das diferenças que nos foram subtraídas ano após ano, reajustes dignos anuais e a segurança do Estado para vivermos nosso futuro.

JULIO ERNESTO BAHR é publicitário e escritor em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res (55 li­nhas) e no mí­ni­mo 1.600 ca­rac­te­res (25 li­nhas).
Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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