Embalado pela poesia que o ano novo inspira, o Cavaleiro - aquele que um dia foi embora para cumprir sua missão e deixou-a só, à margem do caminho - agora retorna para dizer a ela que lhe agrada sentir sua proximidade, mas que também compreende os seus anseios, os sonhos não realizados.
O reencontro, após tantas vivências e tantas ausências, causou uma inevitável fricção, como a de pedras que se atritam.
Ela não desejaria vê-lo partir de novo, mas sonha concretizar sonhos, algo que se perdeu em sua juventude de mulher bela e desejada e que se ofuscou numa união que tinha que ser, que tinha um tempo para durar, e se venceu.
Sonhos de menina-moça, de menina-mulher, buscando curtir coisas que não curtiu no tempo em que deveria ter curtido.
O Cavaleiro a compreende. Seus egos às vezes se manifestam, mas ele a compreende.
Sabe que ela pode ser livre estando só, como pode ser livre estando com ele.
Mas reserva-se o direito de proclamar que ser livre é não depender de liberdades. Que a busca obstinada por liberdade torna-se uma dependência.
Ela e o Cavaleiro sabem que é possível administrar uma saudável união sem que nenhum tire do outro a liberdade. Que um homem e uma mulher podem unir-se justamente para se tornarem livres. Pessoas que se predestinaram ficar juntas nunca serão livres se o egoísmo as mantiver separadas, porque a atração do compromisso as trará sempre de volta. A corrida para uma suposta liberdade as manterá acorrentadas.
Ela e o Cavaleiro já não buscam experimentos. Já transpuseram os portais e vislumbraram o caminho. Juntos, certamente o trilharão com mais segurança. Ademais, abreviando seus resgates ainda restantes. Poucos, mas fundamentais a esta altura da caminhada.
A experienciação de uma prolongada união nesta presente revivência terrena, antes de reencontrar o Cavaleiro, foi algo desejado por ela, quem sabe uma forma de abreviar etapas e diluir de sua memória reminiscências dos tempos em que foi rainha... soberana e dominadora. Depois da união, a separação, pois o ciclo se completara. Ficou com ele a herança do ferimento profundo. Conscientes disso fossem as mulheres, e não inoculariam nos homens o veneno da sedução...
Ela guarda traços muito marcantes do que foram aquelas eras passadas. E sobretudo ainda conserva, em sua memória de vivências remotas, a estratégia da sedução. Algo inerente, que ela nem sempre faz propositadamente.
Como a abelha que vai extraindo das flores o néctar, e alça vôo, imperturbável.
Mas isto também gerou-lhe uma busca constante de algo que ela nem sabe bem discernir. A presença do Cavaleiro rememora-lhe o momento do abandono, a ausência dele a deixa inquieta.
Sua vida faustosa, do passado remoto e do passado recente, deixou-lhe marcas ainda visíveis na sua tridimensionalidade carnal.
Ora revela-se nela sua porção divina, ora seu componente profano.
O Cavaleiro a compreende. Também ele já passou por tais experiências. Já caminhou ao largo, distante dela. Curiosamente foi o tempo em que ela mais o amou...
Em horas perdidas ela divaga, contemplando, entre euforias interiores e lágrimas nunca explicadas, a magia do universo. A um leve toque de sua vara mágica, transcende, cavalga uma estrela e visita a morada de origem, no parque das planícies douradas... Transmuta-se assim o anjo marrom, ao fundir-se na plenitude...
O Cavaleiro agora retorna. Estendendo-lhe a mão, para levá-la com ele.
Montada no dorso de seu cavalo, ele quer levá-la pelos campos e pradarias, dormir com ela ao pé das cachoeiras, não contar os dias e nem as noites, contemplar o fluir da vida em seu aconchego, e cavalgar, cavalgar muito, ao encontro do nascer do sol, de retorno ao poente, ou não necessariamente nessa ordem e nem nessas direções. Seguir para onde as emoções o guiarem. E ser feliz. E fazê-la feliz. E por vê-la feliz, mais feliz ser.
- WALMOR MACCARINI é jornalista

mockup