Li a reportagem da Folha, edição do dia 21 do corrente mês, sobre a decisão da procuradora do Trabalho da 9ª Região, sediada em Curitiba, em manter a proibição do trabalho de menores de 18 anos na Zona Azul, em Londrina, o que muito me surpreendeu, como também li a opinião da Folha na edição do dia subsequente a respeito dessa decisão, o que muito me agradou.
A Escola Profissional e Social do Menor de Londrina – EPESMEL, na qual eu e minha esposa, com muito orgulho, tivemos a honra em ter participado do ‘‘Grupo de Apoio’’ juntamente com muitos outros casais desta cidade, desenvolve, como sabemos, um brilhante trabalho junto aos menores moradores de Londrina e região, dando-lhes uma estrutura educacinal, social, profissional e financeira.
É de conhecimento público e notório o fato de que essa abnegada entidade tem evitado que muitos menores perambulassem pelas ruas de nossa cidade, à mercê de drogas e dos mais diversos vícios que se possa imaginar, sem nenhuma esperança de um futuro melhor, e que hoje, orgulhosamente, se identificam como jovens portadores de uma profissão da qual se servem para o seu sustento e, muitas vezes, de toda a sua família, o que lhes assegura uma vida mais digna e honrada.
Tirá-los, agora, de uma atividade que já exercem com muito amor e carinho e que lhes propicia os meios necessários não só à sua sobrevivência como também de seus familiares, sob a alegação de ser um trabalho ‘‘ilegal e perigoso’’, constitui, realmente, um ato desprovido de qualquer sensibilidade humana que, sem dúvida alguma, surpreende a todos que lutam pelo extermínio da delinquência infantil.
Mesmo porque, não seria justo trocar o serviço já existente que proporciona a cada um desses menores o recebimento de um salário de R$ 220,00, por outro incerto, indicado pela Procuradora do Trabalho, correndo o risco de se tornarem delinquentes, pois, sendo carente o mercado de trabalho, dificilmente conseguiriam acomodar-se em empresas desta cidade.
Creio que a nobre Procuradora do Trabalho também deseja, como todos nós desejamos, que os meninos da EPESMEL, ora atingidos pela sua proibição do trabalho que fazem na Zona Azul de nossa cidade, tenham uma vida mais digna e humana e, com isso, possam se livrar da delinquência e do vício, males esses que tanto proliferam na vida de muitas pessoas e, principalmente, entre os jovens.
Todavia, isso não se resolve dessa maneira, menosprezando o trabalho respeitável da EPESMEL, existente ao longo de muitos anos e que é totalmente voltado ao bem estar do menor.
JUVALDIR BILHÃO é presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis de Londrina
HOMEM-ARANHA
Fui ver o filme do Homem-Aranha, uma grata surpresa para mim, que aprendi a ler manuseando os gibis do herói. Embalei os meus sonhos juvenis nas suas aventuras, e quanto não compensei das minhas limitações dando asas à imaginação?
O Homem-Aranha foi uma referência de infância. E nunca esqueço também o desenho-animado, cuja música trago sempre na memória. Foram tempos de sonho e de esperança, de devaneio da meninice difícil.
O filme superou qualquer das minhas expectativas. Pensei que não fosse passar de mais um filminho caça-níqueis de Hollywood, tipo Titanic. Engano. Não é casual que esteja batendo todos os recordes de bilheteria, inclusive no Brasil. Se tivessem feito um filme de censura livre, como o Harry Porter, provavelmente teria uma bilheteria muito maior.
É uma superprodução muito bem cuidada. Nunca imaginei que pudesse ver o herói de outrora voando entre os arranha-céus, em sua teia, de forma tão perfeita, tão convincente. O diretor Sam Raimi foi muito competente. Gostei especialmente do ator escolhido para ser o herói, Tobey Maguirre, que se mostrou muito adequado ao papel. E mesmo Willen Daffoe, no papel do vilão Duende Verde, me agradou, não obstante as críticas do meu amigo Martim Vasques da Cunha.
Por trás de um enredo simples, vemos a eterna luta do bem contra o mal. Talvez aí esteja o segredo do sucesso, antes no gibi, como agora na tela grande. A história da arrogância e do poder do dinheiro sendo derrotados por aquele que foi abençoado pela dádiva. ‘‘Quanto maior o poder, maior a responsabilidade’’, relembra o tio do nosso herói. A união da ciência, do poder e do dinheiro na mesma pessoa, possuída de suprema soberba, não poderia projetar uma sombra diferente da máscara mefistofélica do vilão. É o demônio encarnado.
E não escapa também o significado simbólico da mordida da aranha geneticamente modificada (ou radioativa, como nos gibis) pela ciência, justamente no momento em que o mal ganha relevo destruidor, sem meios de ser combatido senão pelo herói escolhido. A aranha é uma espécie de símbolo da mãe primitiva, um ser que emerge do mais indiferenciado para combater a arrogância unilateral da ciência = psique do homem moderno. O fundo religioso é evidente.
Peter Parker é alguém demasiado humano, com quem podemos nos identificar instantaneamente. A sua fraqueza – e a sua força mágica – trazem o encanto de um conto de fadas. É como se nos dissesse que guardamos em nós mesmos a força capaz de tudo enfrentar, a despeito da nossa condição humana.
Não escapa também o esquema quadrangular típico dos contos de fadas, os dois duplos (Parker/Homem-Aranha e Osborn/Duende Verde) e mais a Anima, Mary Jane, aquela que dá sentido à vida do herói, o objeto amado e fugidio. Não escapa também ao observador que ele só foi mordido pela aranha = agente do inconsciente que lhe dá a força mágica, porque se atrasou para fotografar a amada.
Ver o filme é diversão garantida, uma viagem pelo requinte da técnica do cinema.
JOSÉ NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV-SP

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