Na complexa relação entre fé e política, o campo evangélico no Brasil tem desempenhado um papel cada vez mais decisivo. O documentário de Petra Costa, "Apocalipse nos trópicos", busca ilustrar esse vínculo, mas incorre em uma generalização que merece ser contestada: retrata o universo evangélico como monolítico e ideologicamente alinhado ao bolsonarismo, ignorando suas múltiplas camadas.

O fenômeno evangélico no país não pode ser reduzido a uma disputa eleitoral. Trata-se de uma performatividade religiosa — um conjunto de práticas, narrativas e símbolos que circulam socialmente e moldam tanto a esfera pública quanto a cultura política. Mais do que apoiar um candidato, essa performatividade expressa valores morais, visões de mundo e interpretações da realidade que influenciam diretamente o debate público.

Como teóloga, preocupa-me a persistência de leituras simplificadas sobre o campo evangélico que ganham espaço na produção cultural e no debate político. "Apocalipse nos Trópicos" levanta questões pertinentes, mas reforça uma narrativa que essencializa a identidade evangélica, reduzindo-a a uma lógica ideológica unívoca — o que empobrece a compreensão de um fenômeno que é, na verdade, muito mais complexo.

A performatividade religiosa evangélica constitui hoje um verdadeiro idioma sociocultural, capaz de mobilizar afetos, sentidos e valores em diversos espaços públicos — inclusive entre sujeitos não filiados formalmente à religião. Essa força simbólica transcende os limites institucionais das igrejas, alimentando discursos e práticas que influenciam diretamente a cultura e a política nacional. Reconhecer essa dimensão não significa endossá-la, mas compreendê-la em seus múltiplos alcances, ambiguidades e possibilidades de resistência.

Artigos publicados em veículos nacionais e internacionais — com enfoques estéticos, teológicos, sociológicos e discursivos — evidenciam que o campo evangélico é representado, com frequência, de forma homogênea. As análises pouco consideram as genealogias religiosas brasileiras, as disputas internas e a pluralidade de práticas que estruturam esse universo.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, Valdinei Ferreira observa que o documentário projeta sobre o movimento evangélico uma ideologia periférica — a chamada teologia do domínio — como se fosse uma força unificadora, reforçando estereótipos e obscurecendo nuances da vivência evangélica no Brasil.

Na mesma direção, Nicolás Panotto, em texto publicado no site Otros Cruces, aponta que o filme constrói uma narrativa que confunde performatividade religiosa com adesão ideológica explícita, ignorando os diversos fatores que atravessam a relação entre fé e política.

Magali Cunha em CartaCapital, alerta para o uso alegórico e conservador do livro do Apocalipse como chave explicativa da conjuntura brasileira, reforçando uma visão fatalista e pouco contextualizada da fé evangélica — e desconsiderando suas múltiplas formas de resistência, justiça e engajamento social.

"Apocalipse nos Trópicos" aponta um problema recorrente: a tendência à simplificação da identidade evangélica e à essencialização da relação entre religião e política. Ignorar as vozes plurais que compõem esse campo é renunciar a uma análise crítica e responsável sobre o papel público da fé.

A performatividade religiosa evangélica não pode ser reduzida a alinhamentos ideológicos. Ela é linguagem, disputa e construção de hegemonia. Neste cenário, a teologia pública se torna uma ferramenta urgente: é preciso tensionar leituras, revelar ambivalências e afirmar a complexidade da fé vivida.

Existem líderes que reproduzem discursos conservadores, sim — mas há também vozes que ressignificam a fé como resistência, inclusão e justiça. Ampliar essa reflexão não é apenas um gesto acadêmico: é um compromisso ético com a pluralidade, a escuta e a transformação social. A religião, nesse contexto, não é apenas fé — é linguagem de poder e possibilidade de reexistência.

Vanessa Carvalho de Mello

Teóloga, pesquisadora e docente

Referências bibliográficas

CUNHA, Magali. Apocalipse nos Trópicos faz leitura alegórica e conservadora do Apocalipse e dos evangélicos. CartaCapital, São Paulo, 24 jul. 2025. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/apocalipse-nos-tropicos-faz-leitura-alegorica-e-conservadora-do-apocalipse-e-dos-evangelicos/. Acesso em: 24 jul. 2025.

FERREIRA, Valdinei. Fé e política: quando o evangélico vira símbolo. Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 out. 2023. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 24 jul. 2025.

PANOTTO, Nicolás. Apocalipsis en los trópicos: entre la simplificación y la urgencia de una mirada crítica. Otros Cruces, Buenos Aires, 28 nov. 2023. Disponível em: https://otroscruces.com/apocalipsis-en-los-tropicos-entre-la-simplificacion-y-la-urgencia-de-una-mirada-critica/. Acesso em: 24 jul. 2025.

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