Na época de Jânio Quadros era a cachaça, o vinho do porto, o drambuie, o pisco, o conhaque, o que viesse. Com Ulysses Guimarães foi o ‘‘poire’’, a aguardente de pêra, francesa ou suíça. Na época de Collor a moda era o uísque ‘‘Logan’’, um doze anos de primeira linha. Com Itamar, para combinar com a simplicidade do pão de queijo, o pessoal adotou mesmo foi o chope nos bares de Juiz de Fora.
Agora são outros tempos. Tempos de gente refinada que dá as cartas no cerrado. E por isso em questões hidráulicas eles ficam mesmo com o tradicional e borbulhante champagne. Nunca se bebeu tanto champagne como na terça-feira, na comemoração da aprovação da emenda da reeleição.
No restaurante Piantella, que na pré-história já foi reduto da oposição, tinha gente saindo pelo ladrão. Todos comemorando a vitória. Evidentemente com champagne. Foram caixas e caixas de ‘‘Moet Chandon’’ e ‘‘Veuve Glicot’’ que foram dizimadas pelos vencedores. Tinha gente de todo o lugar naquele pagode do Vavá. Ministros, líderes governistas, governadores, deputados do alto e do baixo clero, aproveitadores, lobistas, senhores de profissão indefinida.
Segundo o garçon Severino, que comanda a saída dos pastéizinhos de camarão, das porções de presunto cru espanhol, do queijo parmesão italiano, o último freguês saiu às cinco da manhã meio desestabilizado. É fogo essa turma da champanhota.
Mas talvez eles tivessem razão de comemorar assim. Afinal a aprovação em primeiro turno da emenda que dá o direito a Fernando Henrique de disputar e talvez ganhar um novo mandato não é coisa de pouca importância. É o início do ciclo de vinte anos de poder que os tucanos idealizaram para eles. O ciclo que colocaria o País no mesmo patamar dos outros mais desenvolvidos.
Se a reeleição passar por todos os obstáculos que tem pela frente, e mais ainda se Fernando Henrique conseguir mesmo se eleger para mais um mandato serão oito anos de Fernando Henrique. Mas faltam 12 anos para completar o ciclo do império tucano.
O que eles vão fazer com esses 12 anos? Fernando Henrique pode se proclamar presidente e defensor perpétuo do Brasil. Pode também haver o dilúvio, porque depois de FHC só o dilúvio. Mas, tirando a imodéstia tucanal de fora, a verdade é que o partido, como os demais que apóiam o governo, não tem candidato. Aliás, é por isso que PFL e PMDB cairam na real e resolveram apoiar a emenda da reeleição com endereço direto de Fernando Henrique. É aquela velha história: se você não tem o poder o melhor é ser sócio do poder, tirando as suas lasquinhas, é claro.
Mas uma coisa já está bem clara. Passando a reeleição, nos três turnos que ainda faltam, Fernando Henrique vai se tornar um presidente muito forte, fortíssimo. Um De Faulle do planalto central. Os primeiros reflexos disso já começaram a se fazer sentir. Comecou uma onda de adesismo avassaladora. Isso é bom. Mas também é ruim porque se o adesismo for tão deslavado e o inchaço do PSDB for muito grande os outros partidos vão ficar enciumados e podem começar a lançar seus torpedos contra o govenro. O presidente sabe que ter o PFL e o PMDB fechados na oposição não é das coisas mais digestivas.
Só que os tucanos estão com apetite enorme. Querem tudo. Querem o Ministério dos Assuntos Políticos, querem todas as lideranças do governo e, no futuro, a presidência do Senado e da Câmara Federal. O pessoal mais calmo acha que isso é perigoso. É preciso ir com calma. A idéia é mesmo transformar a representação tucana na maior do País. Mas não agora. Só nas eleições do ano que vem. Porque aí a coisa foi no voto e não no adesismo. E os aliados não poderão reclamar.
Por enquanto Fernando Henrique não pode deixar de estar levitando, porque os deputados podem ter ouvido a voz rouca das ruas para aprovar a emenda da reeleição. Mas ouviram muito mais a voz rouca da razão. Da razão política que recomenda ficar ao lado de quem está por cima. E quem está por cima é o presidente, que tem uma perspectiva de ficar mais seis anos no poder. Os dois que restam desse mandato e, possivelmente, mais quatro de um próximo mandato.
Os deputados tomaram juízo e optaram pelo velho e bom pragmatismo de ficar com o razoavelmente certo e não com o absolutamente duvidoso. É como disse o governador da Paraíba, José Maranhão: ‘‘É muito bonito fazer oposição. Mas eu quero ver, depois, quem é que vai arrumar verba para o meu Estado’’.
Ficou claro que é mais fácil ficar junto do poder do que ficar a pão e água fora dele. E o presidente foi muito explícito com relação a isso.

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