Quase todo dia, um fato novo. Num mundo cada vez mais dependente dos países produtores de petróleo, sua importância cresce continuamente, como demonstra a farta cobertura da imprensa. Trata-se do presidente venezuelano, Hugo Chávez - criticado pela verborragia e excessos ideológicos à direita, e saudado como nova liderança mundial à esquerda. A admissão da Venezuela no Mercosul, que deve ser votada na próxima semana na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, divide parlamentares brasileiros. A seguir, a opinião do deputado federal Dr. Rosinha (PT/PR), que deu parecer favorável à Venezuela como relator do projeto na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.
Com toda a turbulência que envolve Chávez, a entrada da Venezuela não pode prejudicar o Mercosul?
Primeiro, não é o Hugo Chávez que está entrando no Mercosul, é a Venezuela. Quando um país vai entrar num bloco econômico é preciso analisar se o fato é positivo ou negativo. Não tenho dúvida de que a Venezuela dá ao bloco maior capacidade econômica, melhores condições de integração energética e, devido a esses dois pontos, melhores possibilidades de negociações em acordos internacionais. E os pontos negativos? Na minha opinião, nenhum. Seu presidente não será eterno por mais que ele queira ser reeleito indefinidamente.
Quando Chávez chama Lula de magnata petroleiro não obscurece o caráter republicano das instituições democráticas?
Acho que ocorre grande preconceito contra Hugo Chávez. A elite sul-americana não tolera um governante que fala o que pensa. Chamar Lula de magnata é uma força de expressão, para mostrar que a Petrobrás também é forte no petróleo, e não só a PDVSA (Petróleos da Venezuela). Que Chávez usa métodos para fazer política que não são os que nós brasileiros usamos, eu concordo. Agora, se esses métodos são corretos, não somos nós que vamos julgar. Mas, não tenho dúvida de que a integração da América do Sul é irreversível e, mais dia menos dia, a Venezuela entra, independente de seu governante.
E o bate-boca com o rei da Espanha não mostra que, apesar dos benefícios econômicos, a integração com a Venezuela pode ser ruim politicamente?
Isso não foi criado por Chávez, mas pela Espanha, em 2002, quando José Maria Aznar - então primeiro-ministro -, deu apoio ao golpe na Venezuela. Tanto que dois países reconheceram o golpe, Espanha e EUA. Com o Chávez pelo menos você sabe com sinceridade com quem está falando.
Críticos da Venezuela dizem que o país não cumpre a cláusula democrática exigida pelo Mercosul...
Atualmente, a Venezuela não fere a cláusula democrática do Tratado de Ushuaia. E outra, se entrar e a cláusula for ferida em algum momento, teremos a obrigação de exigir seu cumprimento - e isso vale para todos os membros.
A compra de armas pela Venezuela não pode dar início a uma corrida armamentista no continente?
Está se trabalhando com muita desinformação sobre isso, principalmente a imprensa brasileira. A Venezuela está comprando armas? Está. Mas de quem comprava antes? Dos EUA, que hoje não vendem mais para eles. Então, a Venezuela está buscando em outros países (Rússia) o que antes comprava dos norte-americanos. Esse é mais um fator para atrair a Venezuela, porque a discussão no Mercosul visa criar um sistema unificado de defesa do continente, e não de cada país isoladamente.
Há paralelos de personalidade - ou na forma de governar - entre Chávez e o governador Roberto Requião?
Acho que no estilo de se dirigir ao público político têm semelhanças, ambos usam um palavreado bastante forte, até mesmo quando se dirigem a outras autoridades.

E no personalismo?
Acho que no personalismo também.

mockup