Apenas, que se faça justiça
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de março de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Confesso que li a notícia duas vezes, e mesmo assim não entendi. Nela aparecia um delegado de Curitiba, enviado pelo Secretário Estadual de Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, para apurar a depredação da Delegacia de Polícia Civil de Ibiporã e do posto da Polícia Rodoviária Estadual. O quebra-quebra ocorreu como represália popular ao assassinato do pastor José Idalécio Bueno. Este foi, segundo testemunhas, morto por espancamento por seis policiais militares, e a dor e a revolta sem dúvida se incrustarão para sempre na memória da mulher e dos filhos do pastor que a tudo assistiram impotentes.
Sobre a punição dos PMs, uma vez apurado o caso, nada disse o emissário do Secretário, mas somente concluiu que a destruição da delegacia e do posto foi um fato lamentável. Entretanto, quem lamentará o morto e sua família? Será este mais um caso de impunidade que se perderá na memória e será arquivado para sempre? Por que, afinal, quantos inocentes já foram trucidados, inclusive por quem deveria protegê-los, e ficou tudo por isso mesmo?
Observando estes tristes fatos é lícito afirmar que seria temerário instaurar no Brasil a pena de morte, pois caso isso ocorresse, provavelmente muitos inocentes seriam legalmente mortos, enquanto os bandidos continuariam a viver felizes para sempre.
Tão pouco ficou para mim realmente claro, o folhetim que agora se escreve sobre a ligação de PC Farias com a Máfia italiana. Isso é tão nebuloso quanto seu assassinato até hoje não esclarecido. Ao mesmo tempo, ressuscitar o ex-presidente Fernando Collor de Mello na TV com renovadas acusações, só pode indicar que existe tremenda falta de assunto no país, ou que se quer encobrir os escândalos atuais com um escândalo requentado.
Assim, é caso de se perguntar: por que não se pune os pequenos e grandes ladrões que nesse momento infestam o país? Ah, estranha Jutiça essa nossa! Ou seria melhor dizer, injustiça?
Por essas e por outras, costumam aparecer nos filmes bandidos internacionais, que depois de roubar e matar dizem tranquilamente: Agora vamos para o Brasil. Quem já não viu essa cena? E não adianta nesse momento ter arroubos pátrios nem culpar os estrangeiros. É apenas nosso retrato que surge nas telas alheias. Vergonhoso mas real retrato que humilha as pessoas de bem que habitam essa terra de Macunaíma. Nesse país do dá-se-um-jeito.
Essa frouxidão de costumes, essa impunidade, essa característica marcada por antivalores, vem de longe. É e bom que aqui se recorde o que Sérgio Buarque de Holanda escreveu em sua magistral obra, Raízes do Brasil:
A frouxidão da estrutura social, a falta de hierarquia organizada devem-se alguns episódios mais singulares da história das nações hispânicas, incluindo-se nelas Portugal e o Brasil. Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente, com a cumplicidade ou a indolência das instituições e costumes.
Sim cumplicidade e indolência são as marcas que até hoje as encontram presentes, inclusive na nossa chamada Justiça, permeando tanto os atos pessoais quanto os institucionais. E hoje como ontem, vive-se o mesmo espírito das colônias da América espanhola, quando se dizia: La ley se acata, pero non se cumple.
Este desrespeito à Lei e à Justiça leva por sua vez à corrupção, velha conhecida nossa. E como afirmou o historiador José Murilo de Carvalho: Está claro que a corrupção não é um simples problema de moralismo udenista, é um fenômeno sociológico que tem a ver com traços profundos de nossa cultura cívica, ou de nossa falta de cultura cívica.
Portanto, o espanto do delegado diante da destruição da delegacia de Ibipirã e do posto da Polícia Rodoviária, e sua indiferença diante do assassinato do pastor cometido por policiais, fazem parte da cultura em que vivemos imersos, e que nos tira às vezes a capacidade de nos indignarmos.
Entretanto, não basta constatar de forma acadêmica que somos frutos de uma embriogenia defeituosa, lembrando uma expansão de Ortega y Gasset. Tão pouco adiante queremos culpar de Cabral ao capitalismo, ou para ficar mais na moda, ao neoliberalismo, por nossas mazelas. Para enfrentar o desafio de mudar temos que encarar de frente nossa típica corrupção, nossa falta de Justiça, nossa ausência de cidadania.
De forma canhestra, quem sabe, foi isso que fez a multidão em fúria. Claro que aquela foi uma forma errada e perigosa de fazer justiça. Mas um erro não justifica o outro, e compete ao governo do Estado punir os assassinos do pastor sobre pena de se desmoralizar diante do macabro episódio. Compete-lhe também refletir sobre o fato, de que a atitude popular reflete a ausência da Justiça institucionalizada, o desespero diante da insegurança, a revolta perante o descaso das autoridades. E é apenas Justiça o que a sociedade está esperando. Isto é lícito e imprescindível que se cobre das autoridades constituídas, dentro da Lei e da Ordem.


