Apenas otimismo não evita inflação
Nas últimas semanas não faltaram prognósticos sobre comportamento dos juros e o risco da volta da inflação. Aconteceu algo pouco comum nas análises: houve convergência entre previsões de consultores independentes, consultores de bancos privados e do governo, através do Banco Central (BC). Em tempo de economia estável as três fontes costumam divergir nos detalhes. Mas, desta vez, todas essas fontes admitiram rever as projeções para cima como costumam dizer.
Mais otimista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, aliviou um pouco o mercado ao afirmar, ontem, que a inflação deverá fechar o ano próxima do centro da meta do governo, de 4,5%. Segundo ele, os 2% acumulados desde janeiro foram puxados por aumentos sazonais (alimentos, tarifas de ônibus e mensalidades escolares) e o índice deverá cair a partir de agora. Nos meses anteriores quem puxou os índices foram as tarifas oficiais, administradas pelo governo.
É melhor ter um ministro confiando na estabilidade do que fazendo coro às previsões pessimistas. No entanto, alguns pontos são determinantes para a aceleração de altas localizadas de preços. Essas altas conspiram para que as médias sejam puxadas para cima. Tanto que, ontem mesmo, saíram dados apontando o item alimentos como vilão no mês passado. Outra coisa: Mantega nega que o Brasil esteja vivendo uma inflação de demanda causada pelo aumento do consumo sem o acompanhamento da oferta. Não é bem assim. Na verdade, existe sim uma inflação de demanda represada o que, aliás, mostra o acerto da política econômica do governo.
Quando, na composição das médias, o comportamento dos preços depende do grupo alimentos, o risco é maior. Revela uma certa vulnerabilidade da economia. Porque os preços são flexíveis e estão sujeitos a fatores imponderáveis como clima. Assim, uma frustração de safra acaba abalando a estabilidade. Não pode. A estabilidade tem que mostrar-se consolidada; menos suscetível a fatores tão efêmeros.
Mas é o que acaba de acontecer. Os alimentos aceleraram em março, com avanço de 1,55% - a maior variação mensal desde junho de 2008, quando tinha subido 2,11% -, contra variação positiva de 0,96% em fevereiro. O grupo contribuiu com 0,35 ponto percentual no índice geral, sendo responsável por 67% do resultado. A economia não está blindada nem contra a sazonalidade dos alimentos, algo tão inerente.





