Apedrejamento cultural
Existe pena de morte mais cruel ou menos cruel? Esse é o debate proporcionado pela repercussão internacional da condenação da iraniana Sakineh Ashtiani, 43 anos, à morte por apedrejamento. Devido a pressões da comunidade mundial, o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad voltou atrás e modificou a forma prevista de execução: forca em vez de apedrejamento.
A discussão é complicada porque coloca em campos opostos conceitos universais como o direito que cada país tem de manter seus valores culturais e o direito universal de preservação da vida. Independentemente do argumento do governo iraniano, que reivindica a autonomia do país para justificar a decisão de condenar a mulher à morte.
Para a antropóloga Liana Reis dos Santos, entrevista pela repórter Érika Gonçalves (''Quando a cultura mata'', pág.3, de 19/08), cada ''sociedade tem o direito de colocar a norma que o coletivo acha que é o correto''. Por outro lado, ela própria reconhece que a comunidade internacional tem o direito de intervir em casos como o de Sakineh, que foi condenada por adultério e por suposto envolvimento no assassinato do marido.
Essa intervenção, no entanto, não pode representar um desrespeito ao direito que cada Estado independente tem de fazer valer suas próprias leis para punir quem comete crimes em seu território. Por isso, conforme ressalta a antropóloga, o ideal é que todos manifestem sua indignação quanto à condenação a morte por meio tão cruel.
O recuo do governo de Mahmoud Ahmadinejad é uma prova de que a pressão internacional dá resultado. O próprio advogado que representava a iraniana já declarou que existem chances de que o Irã volte atrás na decisão de executá-la. Se realmente for sensível aos apelos, o país pode cumprir o que é considerada a solução ideal pela antropóloga: que os iranianos reelaborem essa tradição e criem novos valores, ''mas que não remetam à morte, que valorizem a vida.''





