Apaguem os holofotes, por favor
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de novembro de 1997
Fernando José Dias da Silva 
O Estado Espetáculo mudou de endereço. Agora faz as suas apresentações no Cassino Global. Instalações, espaços, tecnologia avançada, palco de primeira. Mas há problemas de adaptação. O editorial do Jornal do Brasil percebe bem o problema quando diz que: É preciso corrigir o dramático descompasso entre a enorme sofisticação dos problemas econômico-financeiros do mundo globalizado e uma classe política que permanece localista e roceira.
Se o editorial do JB tivesse sido assinado por um crítico teatral iam taxá-lo de arrogante, insensível, despeitado. Classificar o nosso Estado Espetáculo de localista e roceiro, de fato, é forte. Mas é que a análise não foi feita com os nossos parâmetros, mas através de uma visão mundializada (como os franceses chamam a globalização). E na mundialização não cabem certos gestos característicos das nossas performances tropicais de país emergente. Traços considerados exóticos pelos outros.
O Estado Espetáculo apresentado no Cassino Global requer uma certa dose de comedimento. A política transformada em espetáculo dentro de um mundo sem fronteiras de informação pede que a atuação dos atores seja menos rebuscada, mais contida. Menos Gláuber e mais Antonioni.
Só que as coisas não estão acontecendo desse modo. O comportamento dos políticos, diante do pacote fiscal, é exemplo disso. Não importa a gravidade da hora: o que eles querem é aparecer, querem os holofotes em cima para os seus solos.
De preferência, eles querem destaque nas gags e não nas falas que amarram o espetáculo, que dão coerência ao conjunto. A corrida para ser o primeiro a ter bradado contra o fardo que pode cair nas costas de determinados setores da sociedade é representativa do neogrotesco que está impregnando o espetáculo.
Antônio Carlos Magalhães não quis nem ouvir de Fernando Henrique como seria desenhado o pacote, não quis se comprometer porque no dia seguinte sabia que poderia dar uma faturadinha saindo em defesa da classe média: Sou contra o aumento do Imposto de Renda. Depois fez bravata: A equipe econômica manda lá, aqui mandamos nós. E nós (o Congresso) vamos agir pelo Brasil tanto quanto a equipe econômica ou mais.
O líder do PFL na Câmara, Inocêncio de Oliveira, foi mais claro ao afirmar que o partido pode capitalizar, porque foi o primeiro a se insurgir contra o aumento do Imposto de Renda. O novo presidente do PPB então optou pela fuzarca. Paulo Maluf disse que o aumento do IR vai punir quem geralmente é honesto. A alternativa para o aumento é prender sonegador. O sonegador não está incluído no pacote. A gente tem que meter uma medida aí (no pacote) para atingir o sonegador de uma maneira mais violenta. Se as coisas fossem assim tão fáceis não haveria necessidade de pacote nenhum.
Do lado da oposição também as coisas não vão bem. Eles podem estar redondamente enganados se pensam que uma queda de popularidade de governo pode beneficiá-los. Numa crise dessa envergadura a tendência do eleitorado é não querer experimentar.
O eleitorado vira conservador. E conforme o andar da carruagem pode se transformar em ultraconservador, o que pode estraçalhar a oposição, que já está dividida.
O pessoal ainda não percebeu que está todo mundo no mesmo barco.


