Aos Tiradentes que não viraram heróis - Rogério Lima
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terça-feira, 20 de abril de 1999
Rogério Lima 
Aproveitando-se da figura profética e mística, criada pela historiografia oficial, do alferes da Cavalaria Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, deu-se à Inconfidência Mineira um certo ar de romance. Não faltam personagens clássicos, como os poetas Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa, intelectuais que, com toda a certeza, fomentavam os ideais da insurreição, contra a exploração promovida por Portugal contra os quase indefesos cidadãos das Minas Gerais e do Brasil, massacrados econômica e socialmente.
Tiradentes foi para a forca, enquanto os bons moços, socialmente alinhados, ganharam como pena a deserção. O inocente e útil alferes foi colocado como líder inconteste e único responsável pelo movimento rebelde. Depois, com o passar do tempo e a concretização da independência, ganhou o status de herói nacional, como prêmio, ainda que tardio, à sua participação naquele momento histórico.
Hoje, 207 anos depois da execução de Tiradentes e a deserção de alguns dos inconfidentes, uma rápida observação sobre o Brasil nos leva a crer que a história faz-se ciclicamente. Nosso País vem sofrendo, ao longo dos quase 500 anos de sua europeização, o assédio constante e cobiçoso das grandes potências mundiais. Traficantes de ouro, pedras preciosas, madeiras nobres, índios, animais, drogas e armas, para ficar em alguns itens, são figuras habituais no cotidiano brasileiro. Alguns desses, pela ação dos historiadores oficiais, chegaram a ser içados ao posto de heróis. Um exemplo: o bandeirante Domingos Jorge Velho, conhecido traficante de índios que, no Piauí, ganhou a alcunha de El Matador.
No Paraná, especificamente na região Sul do Estado, durante quase três anos, no início deste século, a Guerra do Contestado resultou na morte de milhares de pessoas, militares e revoltosos, tudo porque uma companhia ferroviária inglesa ganhou do governo brasileiro o direito de explorar uma faixa de 9 quilômetros de cada lado da estrada de ferro, ignorando habitantes e suas propriedades. Obviamente que, atingidos em seus direitos, os moradores reagiram, organizando-se e resistindo ao avanço da ferrovia e dos ingleses que usurpavam suas terras.
A repressão do governo, através dos militares, à justa revolta dos moradores atingidos pelo acordo de gabinete entre governo e ingleses utilizou, pela primeira vez no Brasil, o avião como arma de guerra. A história oficial conta que a Guerra do Contestado eclodiu devido a motivos religiosos, assim como tentou-se justificar o massacre de milhares de sertanejos em Canudos, no interior da Bahia, liderados por Antônio Conselheiro, e que representavam uma ameaça ao poder dos coronéis, uma vez que praticavam uma nova forma de sociedade.
Por aí, também é válido lembrar a resistência dos quilombolas da Serra da Barriga, da liderança de Zumbi dos Palmares na luta contra a escravidão e a humilhação que os negros sofriam nas fazendas de cana-de-açúcar do Nordeste. Quantos outros quilombos pelo Brasil afora concretizaram a revolta e a resistência dos negros contra os atentados a seus direitos?
Guararapes, Balaiada, Cabanagem, Farrapos, Revolução Federalista... Quantos e quantos Tiradentes despontaram em nosso imenso território, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, resistindo contra as explorações, os saques às nossas riquezas, ao desrespeito humano, à vilipendiação do nosso patrimônio, à opressão, às injustiças cometidas pelos detentores do poder.
Os Tiradentes anônimos não têm um dia especial para serem lembrados e idolatrados, mas que o 21 de Abril, Dia de Tiradentes, seja dedicado também aos milhares de heróis brasileiros, mártires ou não que, com atitudes de coragem e amor ao Brasil, ajudam a construir a resistência aos desmandos e ao descaso com que seus compatriotas são tratados, exatamente por aqueles que deveriam portar-se como líderes e conduzir o País à prosperidade e à justiça social.
- ROGÉRIO LIMA é vice-prefeito de Palmeira


