O professor - se se respeita ou releva sua ação perante seus educandos - diante do crescente festival do besteirol e da idolatria da mesmice que assola o planeta, só pode e deve ser herético. O mestre, em cujas mãos se forjam e se esculpem caracteres culturais e se moldam conteúdos sócio-históricos, não pode furtar-se a um ato educativo que não seja essencialmente crítico. Se o mestre não tomar o seu gesto didático enquanto negação destruidora da imbecilidade existencial que atualmente se impõe a todos nós, com sutilezas, malícias e sem-vergonhices místico-dogmáticas, ou mesmo o uso equivocado dos meios técnicos que psicotecnicamente nos controlam, ele acaba simplesmente por exercitar a infernal subserviência cotidiana. E isto educa a falência da possibilidade da vida social.
Ou o mestre, com seu conhecimento mostra quanto a vida humana está hoje danificada por uma razão instrumental e imediatista, produzindo assim rachaduras e fendas na consciência daqueles a quem se ensina, ou a sua fala é silêncio consumado e conivente.
O professor que contemporiza o seu tempo tem que ser crítico! Crítico de si mesmo, crítico do que lhe fora ensinado e do que ensina. Crítico das linguagens e das imagens que nos bombardeiam os poros, os tímpanos e as retinas. Crítico da vida que nos é imposta. Crítico dos políticos e da política. Crítico da história; crítico da crítica, posto que a crítica expande o gesto e dá maior alcance ao que se busca.
Não se pode mais educar se não se tiver em mente uma interlocução constante com o que deve ser destruído.
Os discípulos chegam os mestre, muitas vezes com a mente carregada de construções angelicais, xuxéicas, faustídicas, hebe-camarguísticas, videoclipsadas, edir-macedísticas, alborgueti-ratídicas, macdonáldicas, country-&-rodeionubiladas, jesuíticas, iglesiásticas, xitoxororóides, zezé-de-camargo-lucianísticas, gerasambalóides, carla-perezquizóides, paulo-coelhísticas, gugulóides, globóides, e toneladas de tantos outros adjetivos absurdos que decoram a aura semiculturada desses tempos ruins à reflexão. E ainda assim, muitos dos discípulos querem impor a continuidade dessa visão de mundo que se deparam com a competência e a força crítica do mestre.
Só mesmo uma didática potencialmente destruidora possibilitaria uma educação capaz de se contrapor a tais linguagens que permeiam o espírito ingênuo das massas como verdades existenciais. Mais ainda: são o alimento que mais buscam.
É preciso heresia para se pôr do outro lado disso tudo. Conhecer outras linguagens e outros mitos - magias que a cultura responsável e séria, tão renegada hoje em dia, pode ainda nos ofertar. Destruir algo no aluno sim; destruir constantemente a idolatria da mediocridade que lhe enfastia os neurônios e lhe dá por fastio a cultura que o liberta. Que o mestre, na alquimia mútua que estabelece com o seu discípulo, possa desgoverná-lo de sua infantilidade dependente e iniciá-lo no ritual dos livros, para que ganhe tutano maduro e autonomia de caminhos.
Isto posto, nos coloca na condição de condenados quando ferimos princípios, tradições provincianas ou dogmas que se prostam fiéis a idolatria financeira. Ou condenados somos quando nossa fala destoa do sempre e audível a aponta a vista para outro olhar que não o da mesmice que nos conforta e oprime ou ainda, para denunciar a nudez do rei.
É nessa profusão tecnológica deificada pelo homem moderno em que certos valores humanos perderam o senso e se tornaram obsoletos, emerge a fala do mestre a blasfemar contra esses deuses contemporâneos que se impõem absolutos. Os mestres heréticos, num inconformismo constante com tal estandartização da consciência humana, ousam o enfrentamento com tudo aquilo que tacitamente não se discorda em benefício próprio. E assim se condenam e são excluídos da fartura que então é destinada ao contra-senso da vida humana.
Porém, condenados sim, estamos aqueles que ainda amam os livros, encantam-se com palavras e com elas transformam essências, todavia são escorraçados como bruxos malsinados pelo desocultamento que fazem da mística que nos humilha.
Condenados sim, estamos aqueles que ainda percebem o contra-senso dos seus iguais e denunciam os desvarios dessa empreita louca, embora sejam vistos com descado e se lhes fazem ouvidos moucos.
Condenados sim, estamos aqueles que ainda resistem ao chamado mais curto do bem estar próprio e são ridicularizados pela escolha.
Condenados sim, estamos aqueles que ainda não se resignaram diante do engodo das usuais promessas políticas, sucumbindo à idolatria das migalhas e, portanto, são alcunhados de idealistas extemporâneos.
Condenados sim, estamos aqueles que diante dos absurdos e do triunfo da mediocridade, ainda crêem e permanecem de espada em punho para cruzadas iminentes e não se dobram à imposição das barbáries. Apesar dos arquejados pela resistência, resistem!
Condenados a tanto senso de humanidade pasteurizada que pouco lhes dá atenção e respeito, os grandes mestres sobrevivem; pela força que os sustêm: o conhecimento. São tantas as suas heresias!
LUIZ H. FABIANO, é professor do Depto. de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá.

mockup