Ao mestre, com carinho
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de fevereiro de 1997
Algaci Tulio 
A morte do senador Darcy Ribeiro pegou-nos de calças curtas. Nós que o admirávamos e sempre o tivemos como um dos maiores expoentes da inteligência brasileira já havíamos acostumado com a idéia de que driblara a morte, depois de fugir do hospital, ter um sensível ganho de saúde e retomar sua prolífera produção.
Mas, numa hora silenciosa da última segunda-feira, o professor Darcy se foi. De imediato, senti necessidade de dizer a alguém - quem quer que fosse - da importância dele para o Brasil. Tive a idéia de fazer este artigo. Os compromissos entre o rádio e a Prefeitura me atrasaram mas não conseguiram me demover daquilo que parecia uma obrigação. Uma prazerosa obrigação.
Darcy fora o ideólogo do nosso PDT. Suas intervenções nas convenções nacionais e reuniões da executiva do partido transformavam-se sempre numa aula. O pensamento era muito, mas muito mais rápido do que seus lábios conseguiam articular. Fazia associações, construía raciocínios e ilustrava com talento invulgar, para concluir com o brilho do mestre em qualquer lugar do mundo.
Era uma voz corajosa na defesa da liberdade, da democracia, da salvação dos índios, da educação popular, do pleno emprego, da fartura da universidade necessária e da nação latino-americana. Por isso, quando deputado, propus que recebesse o título de cidadão honorário do Paraná. Era uma forma de dizer que reconhecíamos a sua jornada de pensador e fazedor. Mas aí, ele foi escolhido a Senador pelo PDT fluminense e pediu que a honraria fosse adiada. Não queria que fosse motivo de interpretações equivocadas.
Agora, quando seu mandato no Senado estava acabando, revelava preocupação: quem continuaria lutando pelo que ele lutara com a garra de um guarani?
Além do projeto Caboclo, dispondo sobre a ocupação da Amazônia por índios e caboclos, perseguia a aprovação da sua proposta de aditivação da cola de sapateiro com substância química que a tornasse repelente.
No Paraná, já tentamos isso. Fui autor da lei obrigando essa aditivação. Mas, antes que entrasse em vigor, com humildade e alertado pelos amigos, Lydia Bindo e Dante Greca, pedi a revogação da lei. A substância é condenada pelo Organização Internacional do Trabalho e, indiscutivelmente, cancerígena. Como um câncer é a permanência desses milhões de meninos e meninas nas ruas, vestidos em andrajos, famintos, voando nas asas voláteis da cola de sapateiro. Um câncer que se alastra rapidamente contra o qual Darcy procurava o remédio.
No seu último artigo assinado para a Folha de São Paulo, o professor chamava a atenção para o problema e conclamava: Estarei atento. Você também precisa abrir o olho.
De minha parte, continuarei buscando uma alternativa (que parece ser melhorar os mecanismos de fiscalização da vigilância sanitária) mas a advertência do professor apaixonado pelo povo brasileiro serve de linha forte para costurar outras importantes inquietações. Elas foram formuladas no discurso de posse de Darcy no Senado da República: Consagramos nossa política demográfica clandestina? Aprovamos a matança de crianças? Condenamos ou não a política que conduz ao suicídio do povo guarani? Continuaremos multiplicando uma escola pública que rejeita o alunado popular? Apoiamos a política econômica de estagnação e de esfomeamento?
Darcy está agora junto de Rondom, herói de sua juventude, do mestre Anisio Teixeira, ao lado de quem concebeu o sistema educacional que acabaria se concretizando através dos CIEPs no Rio de Janeiro e do amigo João Goulart, com quem lutou para passar este país a limpo.
De lá, tenho certeza que continuará atento e, ao escrever este artigo relembrando sua indignação diante das nossas mazelas sociais, quero manter meus olhos bem abertos. Afinal, tudo está por fazer, ainda que - como disse Darcy - seja isso que faz do Brasil um país maravilhos.


