AO FIM DE OITO ANOS - Nedson deixa desafios para o próximo prefeito
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domingo, 21 de dezembro de 2008
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
Domingo, 31 de outubro de 2004, oito da noite. Nedson Micheleti (PT) se sagrava o primeiro prefeito reeleito da história de Londrina com uma declaração praticamente em tom de sentença: Londrina superou seu passado. O petista acabara de ouvir pelo rádio, no apartamento da família, a confirmação da vitória sobre o ex-prefeito Antonio Belinati (então no PSL, hoje no PP). Belinati fora personificado nas peças de rádio e TV como o passado aludido por Nedson, auto-intitulado o caminho do bem, da decência um contraponto, em suma, ao histórico de denúncias de corrupção.
Nedson faz um balanço dos oito anos de gestão e garante ter cumprido bem o papel para a cidade. Sobre o que faltou resolver, preferiu outra terminologia: Diria que são os desafios para o próximo prefeito, corrige. Fala também da superpopulação de pombos às duas tentativas infrutíferas de venda da Sercomtel Celular, em 2001 e 2007. A onda de terceirizações promovida sobretudo na segunda gestão não passou em branco, tampouco as queixas de suposta ausência em questões cruciais como a segurança pública, ou mesmo nas mais simples, como a ausência a seis dos oito desfiles de 7 de Setembro durante sua gestão. Acho que quem reclama é o jornalista que não me localizou porque achou um bueiro entupido. Deixa o prefeito trabalhar, também.
Nas duas vezes em que se elegeu, o senhor se colocou como alternativa a um passado de corrupção. Qual avaliação faz hoje dessa expectativa criada e da Prefeitura que fica para o próximo gestor?
Saio com um sentimento de que cumpri com tudo que havia prometido. Logo que assumi o governo, fiz planejamento do que seria o primeiro mandato, e, depois, do que seria o segundo. É um planejamento com três grandes eixos de atuação, e fui executando. Comecei pelo equilíbrio das contas e o cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Na política social, mudamos uma relação fisiológica, de dependência, quase, que havia entre as pessoas atendidas pelo poder público e a Prefeitura, como se esta estivesse fazendo favor àquelas que, na verdade, têm direitos. Descentralizamos, contratamos assistentes sociais, levamos o atendimento para dentro das áreas de risco... Praticamente quadruplicamos os recursos para Assistência, e tiramos as creches dessa pasta, à qual estavam atreladas até 2000, e passamos para a Educação. As políticas sociais foram sendo implementadas em respeito ao conselho municipal da área, o que é um avanço tremendo. O terceiro grande eixo foi justamente o do desenvolvimento econômico. Falava-se muito de vocação; lembro até que eu falava que é um equívoco esse estereótipo, pois Londrina é plural. Por isso buscamos um eixo de desenvolvimento plural e moderno, calcado na tecnologia, pois ela engloba desde universidades a indústrias. Articulamos a instalação da PUC (Pontifícia Universidade Católica), do Parque Tecnológico e da Universidade Tecnológica Federal (UTF-PR), por exemplo. Hoje, só na área de software, Londrina tem mais de cem indústrias. Uma última conquista é o Porto Seco, uma grande carência que tínhamos e que, em parceria com a Infraero e com a Receita Federal, conseguimos implementar aqui. Vejo isso como um eixo de desenvolvimento, e já colhendo esses frutos: este ano, batemos todos os recordes de emprego. Creio que essa é a marca que fica, e à qual precisa ser dada seqüência.
O que faltou ser feito, então?
Colocaria entre os desafios para o próximo prefeito a Sercomtel Celular. Não consegui dar solução. Tinha uma proposta, mas não tive a maioria política para implementá-la. Fui deputado federal quando privatizou o sistema, então, tinha noção do que significava a privatização da área da Celular, e de como a Sercomtel não poderia se manter sem a Fixa. O próximo prefeito vai ter que pensar isso já no primeiro ano, porque as dificuldades aumentam. A saída é a venda imediata. O segundo desafio, já que priorizei asfaltamento de bairros sem asfalto, é o recapeamento de asfaltos mais antigos. Fizemos a operação tapa-buracos para manutenção das atuais vias; não tinha como fazer as duas coisas, por falta de recursos. Mas o próximo prefeito, como não vai ter bairro novo para asfaltar, vai iniciar um processo de recapeamento. Um terceiro desafio é a relação com os servidores. Vamos fechar 2008 com 49% da Receita Corrente Líquida gasta com pessoal (a Lei orienta 51,3% como limite prudencial); gradativamente, acredito que os salários vão se recompor.
O senhor acha que a tendência na Prefeitura é diminuir ou aumentar o número de terceirizações?
Vai depender do próximo prefeito se ele lançar algum projeto novo, pode estar terceirizando, mas hoje a terceirização já acontece nos serviços gerais da Prefeitura. E, olha, não aumentou a terceirização: na verdade, as pessoas tinha-m a impressão de que a antiga Frente de Trabalho era serviço público efetivo. Eram mais de 2 mil pessoas, de advogados e engenheiros às merendeiras e margaridas, em contratos precários. A terceirização foi justa.
Em termos de economia: houve?
A questão não é essa. Melhorou a qualidade dos serviços; esses trabalhadores ganharam segurança.
Portanto gasta-se mais, hoje. Correto?
Sim, mas pagamos os direitos trabalhistas; nem se compara com a frente de trabalho. Agora, se fosse trabalho escravo, seria zero de custo, por exemplo. Regularizei a situação em 2001 (por determinação do Ministério Público) e contratei empresas para prestar esse serviço, aí sou o terceirizador mas essa é uma fama boa. Aliás, é isso mesmo.
Ainda que os direitos trabalhistas agora sejam pagos, de uma forma geral o que se ouve nas ruas são queixas de mato alto e sujeira, por exemplo serviços terceirizados. O que acontece: as empresas não são fiscalizadas adequadamente ou a população está reclamando demais?
Quanto ao mato, a terra aqui é fértil, e todo início de ano temos as chuvas. O Calçadão, hoje, é muito mais limpo do que antes. As lixeiras estão sendo instaladas, mas as pessoas continuam jogando lixo na rua. Ocorre que lá atrás o cidadão não reclamava tanto desses problemas porque estavam roubando a cidade; havia desemprego; ou seja, eram problemas mais graves.
A superpopulação de pombos é um problema que fica do seu governo?
Por ora, é. Não existe nada no mundo hoje para dar solução a essa questão, e muito já foi pesquisado. O jeito é cuidar das conseqüências, com a limpeza feita permanentemente.
E a revitalização do Calçadão?
Mas nós o revitalizamos! Todas as suas praças e todo o seu entorno, isso foi feito, e continuamos com esse projeto de revitalização do Centro, agora com a Praça Rocha Pombo. Não dá nem para comparar o que era o Bosque, a Concha, a Praça da Bandeira, com o que são hoje. Havia camelódromos no meio da rua; agora há a Praça da Imigração Japonesa (feita com recursos federais e privados). Quanto ao piso do Calçadão, achamos uma saída intermediária, uma vez que as pessoas ligadas à Defesa do Patrimônio Histórico foram contrárias à sua substituição. Hoje o problema das pedras soltas está praticamente resolvido.


