O que deveria ser um zelo próprio, em defesa da economia pública e da imagem da Câmara Municipal, converte-se no contrário: os vereadores elevando desnecessariamente seus gastos internos e facilitações próprias, e a comunidade reagindo. Acontece em Londrina, onde os ‘‘nobres pares’’ acabam de aumentar a verba de gabinete, para contratar mais assessores. A Justiça brecou essa resolução, por medida liminar, significando que a questão ainda vai render muita discussão. Verifica-se uma inversão de papéis, pois deveria ser dos vereadores a preocupação em economizar verbas, que escasseiam para obras sociais. Mas ao invés de os ditos representantes do povo cuidarem dos interesses da comunidade, é esta que precisa ficar de olho neles para que não cometam abusos, como eles frequentemente fazem. A Câmara deveria ser uma instituição de confiança quanto à aplicação criteriosa do dinheiro público para sua própria manutenção, mas o que se observa é que os vereadores querem gastar pelo máximo. Se há dinheiro, que o pródigo regimento favorecedor lhes proporciona, eles o usam por inteiro, rapelando o tacho. Ao invés de se curvarem diante da reação do povo e penitenciar-se publicamente, eles brigam pela causa de suas mordomias e recorrem da decisão judicial. Este é o ponto fundamental: além do abuso de elevarem gastos supérfluos, os vereadores, quando deveriam pedir desculpa ao povo, o afronta, sem o decoro de conter-se. Tivessem eles respeito aos cidadãos e à própria função, acatariam de pronto – como uma reprimenda – a rejeição popular e a decisão da Justiça. Se a vontade dos eleitores teve validade ao elege-los, a repressão aos seus atos deve ter valor idêntico, mas isto eles não querem reconhecer. O ‘‘sim’’ do voto foi consagrado, mas o ‘‘não’’ ao gasto abusivo anula-se, no entendimento desses senhores. A sociedade civil organizada, que já destituiu um prefeito, promete ir às últimas consequências, e este é o caminho. Londrina já demonstrou que é rebelde contra os usurpadores, e tal acontece desde os tempos da colonização, quando figuras que aqui aportavam com meneios enganadores, para explorar os demais, acabavam extirpadas ou melhoradas, por um processo natural. O meio moldava os que chegavam, mas os vereadores de agora são renitentes. Um gesto de grandeza seria eles anularem o aumento de gastos que aprovaram e, em manifesto público, pedirem desculpa ao povo.

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