Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
Novos rumos
Na semana que passou interrompi por algumas horas os contatos com os eleitores de São Paulo e participei de um debate com estagiários dos cursos da Escola Superior de Guerra, no Rio de Janeiro. Em toda a parte há sério interesse em entender por que, de uma hora para outra, a estabilidade da economia brasileira parece ameaçada por acontecimentos tão distantes como a crise bancária asiática ou pela incrível confusão vivida pela economia russa.
Existe uma crise nos mercados financeiros que atinge os países emergentes, alguns mais vulneráveis que outros. E existe a crise brasileira que é preciso ser melhor explicada. Vivemos uma espécie de paradoxo. De um lado, os brasileiros se beneficiam do regime de estabilidade de preços, graças a um dos mais competentes planos de combate à inflação já realizados no mundo. De outro, sofrem as consequências de uma opção equivocada na condução da política cambial, que deixou o País extremamente vulnerável às crises externas, bloqueou o crescimento econômico e produz altas taxas de desemprego.
Algumas pessoas ficam surpresas quando afirmo que o Plano Real acabou há dois anos. Ele cumpriu plenamente a tarefa de estabilizar a moeda. Mas parou por aí. Os condutores da política econômica deixaram de perseguir o principal objetivo de qualquer plano - que é o desenvolvimento - ao exercerem a opção de defender o câmbio. E o fizeram respaldados na crença equivocada que os aumentos de produtividade seriam suficientes para neutralizar a defasagem cambial e que, com o tempo, as exportações retomariam o dinamismo e a economia voltaria a crescer. Foi apenas um sonho numa noite de verão...
Essa questão é o ponto de partida para entendermos as razões dos desequilíbrios interno e externo da economia brasileira, hoje. É difícil aceitar a idéia de que o governo tenha demorado tanto para se dar conta que o aumento das exportações é fundamental para a retomada do crescimento da economia. E que só o crescimento possibilita as condições de equilíbrio interno e externo.
A rigidez da política cambial favoreceu as importações e dificultou as exportações, gerando déficits nas transações comerciais com o exterior. Para sustentá-la, estimulamos o ingresso de capitais, elevando as taxas de juros internas. As consequências da elevação dos juros foram a queda no ritmo da atividade econômica, desemprego, constrangimento de crédito e inadimplência, além do crescimento vertiginoso dos compromissos externos e da dívida pública interna.
É algo extraordinário como a economia brasileira vem suportando tamanho castigo, sem que a sociedade tenha tido a oportunidade de conhecer o que se passa e de discutir os rumos da política econômica pós-Real. A explicação é que o governo exerce uma tal influência na mídia que conseguiu interditar o debate, daí as pessoas se mostrarem surpresas com a vulnerabilidade de nossa economia diante da crise das Bolsas.
O aumento das exportações é o único caminho para enfrentar o constrangimento externo que cresce a cada dia e ameaça a própria estabilidade. A solução de aumentar os juros para manter os financiamentos já não parece surtir efeito, esbarrando na desconfiança dos mercados. Em tempos de turbulência não é momento de fazer marola, pois estamos no mesmo barco. Passada a emergência, no entanto, devemos insistir na mudança de rumos da política econômica.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado pelo PPS-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





