Antonio Delfim Netto
Clareando
o debate
Ao tentar desviar-se da pergunta incômoda de um jornalista que lhe indagava como seria possível reduzir o desemprego sem que a economia voltasse a crescer, um ilustre membro da equipe econômica respondeu secamente: ‘‘qualquer idiota sabe como fazer a economia crescer; o difícil é manter o crescimento sustentado’’. Esse pequeno episódio aconteceu há dois anos, quando o Produto crescia uns 2,5% a 3%. Hoje, admite-se que possamos chegar a um crescimento de 1,5% em 1998, isso se conseguirmos reverter a queda de 0,5% verificada no primeiro semestre do ano. A estabilidade vai bem, com os preços registrando uma pequena deflação.
Há cerca de trinta dias o presidente da República revelou à jornalista Tereza Cruvinel alguns objetivos para um eventual segundo mandato: manutenção da estabilidade, retomada do crescimento, combate à pobreza e ampliação dos direitos humanos. S.Exa. disse o seguinte: ‘‘Emprego só vem com o crescimento e crescimento só se faz com três instrumentos: juros mais baixos, política fiscal e aumento das exportações.’
Eremildo, o genial personagem criado por Elio Gaspari, certamente concluiria que está faltando idiota no governo. E pediria para ser convocado para dar consequência aos objetivos do presidente, num eventual (e cada vez mais provável) segundo mandato. Ao contrário do que aconteceu no atual mandato, a economia retomaria o crescimento e a curva ascendente do desemprego seria revertida. O esperto Eremildo obviamente não cometeria a tolice de atribuir o desemprego brasileiro a fatores tais como ‘‘avanço tecnológico’’ ou a
‘‘modificações estruturais na economia mundial’’... nem tentaria resolver o problema com medidas tópicas que desnaturam a qualidade do trabalho...
Pela primeira vez o presidente está dando uma boa contribuição para clarear o debate, ao reconhecer que o desemprego é causado pela redução do ritmo do crescimento econômico e pelo comportamento preguiçoso de nossas exportações. Sem um crescimento mínimo de 6% do PIB, não existe a possibilidade de absorver a força de trabalho que chega ao mercado todos os anos. Não podemos continuar convivendo com as taxas de desemprego como as que ocorrem em São Paulo, com 18% da força de trabalho sem colocação, ou seja, de cada cinco pessoas uma está na rua da amargura. E fica desempregada entre 14 e 16 meses.
Com as atuais taxas de juros não é possível ampliar o nível da atividade econômica. As taxas de juros estão nas alturas porque deixamos construir um enorme déficit em conta corrente. E esse déficit foi construído pelo erro da política cambial que enfraqueceu as exportações e estimulou importações.
Após 30 meses de fraco desempenho, o governo tentou estimular as exportações no primeiro semestre deste ano, mas o crescimento das vendas externas em relação ao ano passado já converge para 4%, o que é claramente insuficiente. O presidente parece ter adquirido a percepção que as exportações são fundamentais para reduzir o constrangimento externo, baixar os juros e permitir a retomada do crescimento. E que este é o único caminho para resolver o problema do desemprego.
Restaria apenas ao sagaz Eremildo convencer Brasília que a estabilidade não impossibilita o crescimento, pois seria o mesmo que admitir que só a inflação produz o desenvolvimento...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB/SP

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