Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
Aumentando
o rombo
interno
Os dados relativos ao comportamento da economia nos primeiros seis meses do ano confirmam a eficácia do pacote de maldades derramado sobre a sociedade brasileira em novembro passado. A elevação das taxas de juros produziu os efeitos esperados: crescimento negativo do PIB, aumento da inadimplência e dos níveis recordes de desemprego e uma pequena redução no déficit comercial devido à queda no ritmo das importações. As exportações reagiram pouco e mantêm o ritmo preguiçoso dos último quatro anos.
Se tivermos sorte chegaremos ao final de 1998 com um crescimento do PIB próximo a 1,5%, o pior resultado dos últimos anos. Esses dados são cuidadosamente escondidos da mídia, enquanto o governo faz sucesso comemorando o ingresso recorde de recursos externos no semestre.
O aumento dos investimentos estrangeiros é um dado positivo em nossa economia, mas é preciso observar qual o destino desses recursos. Eles têm vindo em parte por causa das privatizações. Os maiores negócios, porém, estão orientados para a compra de nosso mercado interno, alijando empresas nacionais, muitas delas exportadoras.
Se as empresas estrangeiras estivesse vindo montar seus negócios no País direcionados para as exportações, estariam contribuindo de modo importante para o crescimento econômico. Isso não acontece porque o setor exportador é o de menor taxa de retorno e o de maior risco na economia brasileira.
O capital estrangeiro vem chegando, então, de olho no poderoso mercado interno brasileiro, um mercado de 160 milhões de habitantes e de US$ 5 mil de renda per capita. Ainda que a renda seja pessimamente distribuída, é um mercado respeitável. Assistimos agora, por exemplo, ao aumento do interesse estrangeiro em participar do setor da construção civil. Em condições normais é um setor de excelente rentabilidades, grande gerador de emprego, que acaba de receber facilidades do governo com o novo sistema de financiamento habitacional.
A participação estrangeira deverá aumentar a competição no setor e possivelmente a redução de custos com a introdução de tecnologia. Pode contribuir para baratear o preço da habitação, melhorar as condições de financiamento e para ampliar a oferta de empregos na construção. Não deve representar maior problema para as construtoras locais, até porque as empresas estrangeiras estão buscando participações minoritárias, apoiando-se no conhecimento de mercado dos seus sócios nacionais.
Situação bem diferente é a que se apresenta no setor bancário, alvo da mais recente ofensiva do capital estrangeiro. O Brasil já viveu outras épocas de desequilíbrio em suas contas externas, mas nunca os governos aceitaram a idéia de entregar o controle do sistema financeiro aos bancos estrangeiros. É simplesmente pueril o pretexto ora alegado que se trata de estimular a competição e melhorar o atendimento aos clientes.
Neste caso, omite-se o fato de que estamos trilhando um caminho sombrio, que vai terminar na completa dependência da economia brasileira aos interesses da banca internacional. Significa abdicar da capacidade de conduzir a política econômica em conformidade com os objetivos nacionais.
Os investimentos estrangeiros facilitam o financiamento do déficit em conta corrente, mas é preciso lembrar que eles aumentam o passivo externo e a exigência de remessas no futuro. Não há conforto no fato que esses recursos estejam financiando o rombo presente, porque eles estão construindo um rombo maior no futuro.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





