Antonio Delfim Netto
Debate
nas urnas
Participando do programa Opinião Nacional da TV Cultura de São Paulo na semana passada, recebi um número expressivo de perguntas de telespectadores preocupados com a questão do desemprego. Apesar de ser um tema estranhamente ignorado pela mídia, há um desconforto crescente na população diante da ausência de respostas do governo ao drama que atinge milhões de famílias brasileiras nas cidades e no campo. As pessoas que pensam o problema se inquietam ainda mais com o silêncio das classes empresariais e dos meios acadêmicos, como se esta questão não lhes dissesse respeito. É uma abstinência que tem muitas explicações e nenhuma justificativa.
O problema do desemprego é uma grave ameaça à estabilidade social nos países pobres como o Brasil. A negação da oportunidade de trabalhar fere fundamentalmente o senso de justiça que gera a coesão social. Fere a cidadania, retira-se a auto-estima das pessoas e destrói o núcleo familiar transmissor dos valores que deveriam mantê-la. Numa sociedade democrática, onde o voto tempera a selvageria do mercado, uma situação de desemprego prolongado não sobrevive, a não ser à custa da construção de uma rede de proteção para os excluídos do mercado de trabalho. Isso significa uma transferência de renda de quem tem o benefício de poder trabalhar, para quem sofre a tragédia de não poder fazê-lo.
Essa é, obviamente, uma solução que não elimina os inconvenientes psicológicos e materiais do desemprego. Representa um grave desperdício social, por que quem está impedido de trabalhar está impedido de produzir, empobrecendo ainda mais a sociedade. É por isso que alguns economistas sempre colocaram o pleno emprego como a prioridade mais importante da política econômica. O pleno emprego deve ser buscado dentro de condições de equilíbrio interno (taxa de inflação baixa e estável) e equilíbrio externo (balanço e contas-correntes sustentável).
Tenho insistido nestes quatro anos de Plano Real que a estabilidade da moeda, brilhantemente alcançada, não é um fim em si mesmo. O objetivo principal de qualquer programa de estabilização é o de criar as condições para o crescimento econômico e este foi sendo constrangido pelo crescente desequilíbrio das contas externas.
Sem um crescimento vigoroso não conseguimos ampliar a oferta de empregos no nível suficiente para manter a coesão social. Num país pobre como o nosso, com uma distribuição de renda miserável, onde não existe a rede de proteção que possa amparar os excluídos do mercado de trabalho, aquela exigência é ainda mais evidente. Só os economistas do governo insistem em ignorar a ameaça de ruptura que deriva nos níveis recordes de desemprego que estamos assistindo.
Algumas pessoas acreditam que o período pré-eleitoral não oferece o clima adequado para um debate produtivo sobre os rumos da política econômica. Não creio que isso possa ser adiado. Até mesmo a Fiesp parece ter abandonado a timidez desses últimos anos e resolveu pedir a ‘‘rediscussão’’ da política econômica, inclusive da política cambial, reconhecendo que o problema de desemprego só se resolve com o crescimento.
Os leitores que têm tido a paciência de acompanhar meus comentários sabem o que penso a respeito: a armadilha que impede o crescimento - e portanto a ampliação do mercado de trabalho - foi construída a partir do equívoco na política cambial. O desequilíbrio externo nos tornou reféns do mercado financeiro, o que nos obriga a praticar níveis de taxas de juro que inibem o crescimento. A ‘‘rediscussão’’ tem que começar neste ponto.
Para aqueles que preferem o silêncio, é sempre bom lembrar o antigo ‘‘slogan’’ dos socialistas fabianos ingleses: ‘‘As fábricas estão fechadas, mas as urnas estão abertas!’’. Numa sociedade democrática, os excluídos podem não ser ouvidos pelos economistas do governo, mas certamente não deixarão de falar nas urnas. Se resistirem à idéia que têm que morrer pacificamente para benefício geral, podem até votar errado...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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