Antonio Delfim Netto
O melhor
momento
Bela festa, lindíssimas moedinhas, o 4º aniversário do Plano Real mereceu a comemoração pelos resultados obtidos na redução das taxas de inflação. Os telejornais mostraram a orgulhosa equipe econômica e um elegante presidente em plena campanha de reeleição em cenas de transparente alegria. Houve que estranhasse a ausência de personagens importantes como o ex-presidente Itamar e o ministro Ricupero, cuja participação foi decisiva nos momentos cruciais do Plano Real. A ética tucana tem suas limitações.
O Plano Real foi um dos mais brilhantes programas de estabilização já concebidos no mundo. Ele irá para a história como um exemplo de imaginação e de sofisticação dos economistas brasileiros. Conseguiu baixar a inflação mais rapidamente que em todos os demais países que testaram planos alternativos. A festa, portanto, não é fora de propósito. Mas...
A maioria dos brasileiros aplaude a estabilidade mas a cada dia que passa demonstra mais impaciência com a incapacidade do governo em remover os obstáculos ao crescimento da economia. Apesar da propaganda oficial insistir que estamos ‘‘entrando no quinto ano de crescimento sustentado’’, as pessoas sentem na pele que a economia não cresce o suficiente para dar empregos a quem quer trabalhar. Os jovens enfrentam enormes dificuldades para ingressar no mercado de trabalho e trabalhadores maduros são expulsos para a ‘‘economia informal’’.
Qual a perspectiva que a atual política econômica oferece ao cidadão que perdeu o emprego e fica sabendo que, mesmo aceitando menor salário, a expectativa de recuperá-lo é de cinco meses, em média, e tende a aumentar?
Qual a solução para o comerciante que vê suas vendas despencarem e seus clientes mergulharem no abismo na inadimplência? Ele apenas sabe que vai quebrar, como tantos outros, se não for mudada a política de juros.
O que dizer aos exportadores, que perderam a capacidade de competir nos mercados duramente conquistados, se os ‘‘cabeças-duras’’ do Banco Central não sabem como libertar a economia da armadilha do câmbio sobrevalorizado?
Como convencer os agricultores a aumentarem as áreas de plantio se eles continuam sufocados pelas dívidas contraídas no crédito rural, por impostos punitivos, sendo caro o dinheiro para investimentos, e sem contar com nenhuma proteção contra a importação de alimentos a preços geralmente subsidiados nos países de origem?
Como exigir da indústria nacional que enfrente os competidores externos se a sua produção é gravada por custos financeiros cinco vezes maiores e por uma carga tributária 1/3 acima da que vigora nos países concorrentes? E ainda tem que suportar uma taxa cambial que favorece as importações?
Nenhum desses problemas deveria existir como consequência obrigatória de um programa de estabilização. Mas eles persistem porque o governo não soube corrigir um dramático erro cometido no início de sua execução, a desnecessária sobrevalorização do real. Há quatro anos, os críticos que apontaram a barbeiragem cambial foram qualificados de ‘‘neo-bobos’’ pelo governo.
Hoje, quando ingressamos no quinto ano de baixo crescimento da economia e atingimos índices recordes de desemprego, o governo finalmente se convenceu da necessidade de quebrar a armadilha dos juros/câmbio. Mas está sendo aconselhado a esperar até depois das eleições, o que é mais uma das apostas temerárias da equipe econômica. Corremos o grave risco de sermos ‘‘puxados pelo nariz’’, em decorrência da expectativa criada a esse respeito.
Por causa da insegurança do Banco Central, perdemos várias oportunidades de deixar o câmbio flutuar e reduzir as taxas de juros, à espera do ‘‘melhor momento’’, sempre adiado. Nossa economia está manietada pelo constrangimento externo e nossos guardiães da moeda só têm um recurso para enfrentar a chantagem dos mercados financeiros: elevar brutalmente as taxas de juros. O que significa aumentar a quebradeira no setor privado e reduzir ainda mais a capacidade de investimentos do setor público.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB/SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejanento

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