Antônio Delfim Netto
‘‘Em queda’’,
para o alto...
O governo tem feito um grande esforço de comunicação para tentar reverter o clima de desânimo que se apossou dos consumidores diante das persistências das altas taxas de juros. O próprio presidente da República tem se empenhado nesta cruzada. Sempre que a oportunidade se apresenta, S.Exª. não hesita em lembrar que ‘‘os juros estão em queda’’, após o grande solavanco determinado pela crise das economias asiáticas.
Tenho sérias dúvidas quanto à eficácia dessa pregação. É evidente que esse trabalho de relações públicas objetiva convencer as pessoas mais simples e não os agentes financeiros. O comportamento do mercado nas últimas semanas não permite alimentar dúvidas a respeito.
É difícil entender as razões que levaram o presidente da República a participar de uma ação dessa natureza. A taxa básica do Banco Central está aprisionada num piso mínimo de 20% ao ano em função dos compromissos de rolagem da dívida externa. Ela tem se mantido nesse nível e os únicos movimentos significativos que sofreu nos últimos 30 meses foram a alta desesperada para 42% por conta da crise asiática e o retorno ao patamar anterior, 180 dias após!
No período de novembro do ano passado a maio de 1998, a dívida interna, por sua vez, cresceu 60%, passando de R$ 120 bilhões para R$ 192 bilhões. A resistência do mercado em aceitar a prefixação dos juros tem obrigado o Banco Central a reduzir os prazos na colocação dos títulos federais, o que revela grande incerteza quanto à possibilidade de queda nas taxas.
No universo dos consumidores, o discurso oficial também não tem conseguido neutralizar a descrença quanto ao comportamento futuro das taxas de juros. Pesquisa recente realizada pelo Instituto Vox Populi a pedido da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) revela uma postura bastante cautelosa dos consumidores em relação às compras a prazo. A maioria dos entrevistados acredita que os juros vão continuar elevados e por isso não pretende recorrer ao crediário, se tiver que comprar, só à vista.
O patamar de 20% nos juros só se aplica à taxa básica do Banco Central e nada tem a ver com o setor privado da economia, em que as taxas mínimas são de 40% ao ano. Trata-se de um nível escorchante que se mantém praticamente como um piso em todo o período do atual governo. No crédito ao consumidor, os juros variam de 50% ao ano a 150% e até mais, dependendo do produto e dos prazos. São essas taxas que explicam os elevados níveis de inadimplência dos consumidores brasileiros, de um lado, e o aumento do risco do setor financeiro, por outro lado.
Seria absolutamente dispensável, portanto, prosseguir na tentativa de convencer as pessoas que ‘‘as coisas vão melhorar porque os juros estão baixando’’...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB/SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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