Antonio Delfim Netto
O ministro da Agricultura, Francisco Turra, está batalhando no governo a liberação de recursos para aumentar em 10% a produção de alimentos no próximo verão de 1998/99, com ampliação das áreas de plantio e da oferta de empregos no setor rural. Além do custeio das lavouras, cerca de R$ 1 bilhão devem ser destinados ao financiamento da compra de máquinas e implementos pelos agricultores. É um valor modesto, diante da urgente necessidade de recuperação da atividade agropecuária em todo o País.
Se o governo tiver juízo não vai regatear nem retardar a liberação dos recursos. A colheita deste ano não foi nada boa na região Sul/Sudeste, foi apenas regular no Centro-Oeste praticamente não existiu no Nordeste do País. As chuvas foram irregulares no Sul, causando perdas na produção, e a seca atingiu duramente todo o Nordeste e parte da região Norte. A má performance da agricultura, somada à queda da produção industrial e ao aumento do desemprego, resulta num problema cujas proporções não dever ser minimizado.
Nos primeiros anos do Plano Real a agricultura deu uma contribuição decisiva para a estabilização da economia. Apesar de não com o suporte de crédito, apesar de ficar exposta à competição das importações e sem a garantia de compra das colheitas, a agricultura produziu o suficiente para o abastecimento do mercado interno e deixou saldos nas transações com o exterior. Sem o apoio do governo, ela se valeu dos próprios meios e contou com a ajuda providencial de São Pedro nas safras 95/96 e 96/97. Após as duas colheitas, porém, ele aparentemente se cansou de carregar o governo nas costas e transferiu responsabilidade para El Ni¤o.
A safra 97/98, que acaba de ser colhida nas regiões Sul/Sudeste e Centro-Oeste, é menor que a do ano passado. Pela primeira vez em muitos anos a produção de arroz e feijão não será suficiente para abastecer o mercado interno. Não se pode desconhecer o efeito produzido pelas irregularidades climáticas, mas é impossível esconder que uma parcela importante da queda na produção se deve à perversa atitude do governo em relação ao setor.
Faltou vontade política e sobrou incompetência e imobilismo nos centros de decisão do poder e nas agências oficiais de fomento. A consequência é que estamos sendo obrigados a importar feijão da China e arroz da Indochina, a preço cinco vezes superiores aos que recusamos pagar aos nossos produtores nas três safras anteriores. Com os preços aviltados, milhares de bons agricultores abandonaram a atividade e hoje são eles que estão fazendo alta.
Um estudo recente dos economistas Lauro Vieira de Freitas e Mauro Lopes, da Fundação Getúlio Vargas, mostra que entre 1990 e 1997, caíram 30% dos preços pagos aos produtores de arroz, feijão, algodão, milho, leite e trigo. Dois milhões de hectares deixaram de ser cultivados, ocasionando a eliminação de 400 mil empregos na área rural. Entre 1995 e 1997 a área de plantio de arroz encolheu 8,1% e a área destinada ao trigo foi reduzida em 24%.
Esses e outros dados devem ser bastante conhecidos dos responsáveis pelas políticas para o setor agropecuário. Com a escassez de alimentos na mesa dos brasileiros, a salvação do próprio programa de estabilização da economia passa a depender radicalmente da salvação da lavoura.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB/SP e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





