Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
A vingança
do feijão
O Presidente de República está preocupado com a falta de feijão, com a alta nos preços do arroz e com a queda dos índices de popularidade nas pesquisas de opinião. A discussão a respeito da posição do Presidente nas pesquisas tem produzido explicações ridículas. Na verdade as pesquisas refletem um instante e, nesse momento, a queda mostra que o governo está sendo avaliado da forma mais crítica pela população.
As causas são facilmente identificáveis: o atual governo teve um grande sucesso no combate à inflação graças ao Plano Real, organizado no governo anterior. O Presidente sentou-se sobre os louros dessa vitória extraordinária e não organizou seu governo para agir sobre os problemas reais da economia! Duas questões são exemplares dessa falta de organização que está caracterizando um governo lento e ineficiente: o aumento dos níveis de desemprego e a queda na produção agrícola.
Há três anos o governo vem praticando taxas de juros que inviabilizam investimentos produtivos e corta a oferta de empregos. Desde o início estava claro que era a sobrevalorização do real que determinava a política de juros altos. Em ligar de corrigir o câmbio quando teve oportunidade, baixar os juros e retomar as condições de aumento da oferta de empregos, o governo preferiu explicar as causas de desemprego. Com falsos argumentos: o desemprego é produto do avanço tecnológico ou é consequência inevitável da globalização da economia...
No caso da agricultura, a explicação do governo atribuindo os problemas da safra ao fenômeno El Ni¤o é apenas parcialmente verdadeira. A realidade e que há quatro anos vem sendo reduzida a área de plantio de lavouras nas regiões centro, sul e sudeste do Brasil. Os agricultores têm feito por conta própria um enorme esforço para aumentar a produtividade, mas sem poder investir na ampliação da área. A maioria ainda carrega o peso das dívidas contraídas em safras anteriores e sofre os efeitos da desvalorização de seu patrimônio. Os pequenos e médios produtores, principalmente, continuam com acesso muito limitado ao crédito rural, apesar do que diz a propaganda oficial. O governo comemorou prematuramente este ano uma supersafra de grãos que não se concretizou: os últimos levantamentos apontam para uma colheita de 76 milhões de toneladas, menos que a do ano passado e equivalente ao volume das safras de 5 ou 6 anos atrás.
Os estoques de arroz estão curtos e não há estoque remanescente de feijão devido à queda de produção nas safras anteriores. Há três anos os produtores de feijão arcaram com prejuízos enormes devido à abertura indiscriminada das importações. Naquela ocasião, uma garantia de compra a 30 reais a saca resolveria o problema, mas não houve suporte do governo e os preços vieram ao chão. Milhares de pequenos produtores abandoraram as lavouras e passaram a engrossas as fileiras dos Sem-Terra. Este ano a redução do plantio do sul e sudeste e a seca em Irecê encurtam a oferta do produto nacional. Os preços do feijão aumentaram 200% em relação ao ano passado. O quilo chegou a 4 reais para o consumidor urbano e o governo anuncia que vamos comer feijão chinês, importado a 1,70 reais o quilo, ou seja, mais de 100 reais a saca... Ainda existe estoque de arroz, mas não é suficiente para o abastecimento. Os preços subiram 40% para o consumidor e o produto terá que ser importado.
Tanto o homem do campo quanto o trabalhador urbano estão cansados de ouvir explicações oficiais. É a sua descrença na ação do governo que aparece nas pesquisas de intenção de voto
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.





