Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
Dependência:
teoria e
praxis
Em apenas uma semana o presidente Fernando Henrique fez mais para corrigir o discurso errático dos porta-vozes de sua política econômica do que nos 40 meses anteriores ao seu governo. Finalmente, parece que S.Exa. se convenceu que O Brasil não pode conformar-se com um (medíocre) crescimento de 3% ao ano, conforme declarou em entrevista coletiva nos jardins do Alvorada em Brasília. Cinco dias após, na inauguração da ponte rodoferroviária sobre o rio Paraná, voltou a manifestar inconformismo com a política econômica de seu governo. Pela primeira vez relacionou o problema do desemprego com as pífias taxas de crescimento do PIB. Desemprego - disse ele - se combate com desenvolvimento!
Falta ver como a praxis (como gostam de dizer os sociólogos) vai referendar o novo discurso. Desde o início de seu período de governo, o Presidente vem repetindo os argumentos que lhe são sugeridos, ora pela equipe econômica, ora pelos marqueteiros de plantão. Gasta-se muito dinheiro público para convencer o brasileiro que ele deve conformar-se com a falta de oportunidades de trabalho, porque esse é caminho da modernidade... A rigor, o problema maior sequer reside nos gastos exagerados da propaganda, mas sim naquilo que o jornalista Elio Gaspari apontou num magistral artigo: o perigo é o governo acreditar na própria propaganda...
A sociedade brasileira foi enganada todo o tempo, quando se escondeu de seu conhecimento que a consequência irreversível da sobrevalorização cambial seria o surgimento de um estado de extrema dependência vis-a-vis o exterior. Essa dependência foi sendo construída passo a passo no atual governo: a sobrevalorização do real desestimulou o setor exportador e favoreceu importações, gerando os déficits nas contas do comércio e de pagamentos. Quando a economia ameaça crescer um pouco mais rapidamente, as importações se aceleram tornando mais difícil o financiamento dos déficits. Essa dificuldade de financiamento obriga o governo a elevar as taxas de juros, visando um duplo objetivo: a) reduzir a velocidade do crescimento econômico e, portanto, das importações; b) atrair recurso externo para continuar rolando a dívida. Devemos reconhecer que estes dois objetivos foram plenamente atingidos ao longo dos 4 anos. A que custos para a sociedade?
O nível das taxas de juros é determinante para o ritmo de crescimento da economia. Juros altos inibem investimentos, freiam a produção, semeiam a inadimplência, destroem empresas e ameaçam a saúde do sistema financeiro. É por isso que a taxa do PIB brasileiro bate no teto quando se aproxima dos 3% anuais. Nesses anos todos tenho repetido, ad nauseam, que enquanto o PIB estiver crescendo abaixo de 6%, nossa economia não gera o volume de emprego suficiente para ocupar a mão-de-obra que chega ao mercado de trabalho todos os anos. E muito menos consegue diminuir o estoque de desempregados que aí está.
A quem serve, então, a taxa de juros que estamos praticando? Seguramente ela não atende aos interesses dos trabalhadores e empresários brasileiros. Ela só existe em função da exigência dos credores de nossa dívida, como condição para continuar a financiá-la. Chegamos ao estágio superior da dependência de uma economia aos ditames dos mercados financeiros, nacional e internacional.
Nosso ilustre Presidente demorou quatro anos para perceber a armadilha que lhe prepararam. Logo S. Exa., que é autor de um best seller sobre as causas da dependência dos países da América Latina!
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.





