Antonio Delfim Netto
Duas gerações
Desde o início do Plano Real, as taxas de juros têm produzido efeitos perversos em nossa economia, inviabilizando a retomada do desenvolvimento do país e reduzindo dramaticamente as oportunidades de trabalho dos brasileiros. Nestes primeiros meses de 98 estamos com um crescimento do PIB próximo de zero e praticamos as maiores taxas de juros do universo. Onde existia desemprego, o quadro se modifica para desemprego e fome e não é só no Nordeste.
O Governo afirma que ‘‘estamos vivendo o sexto ano de crescimento consecutivo’’, o que pode ser uma verdade aritmética, mas de significado dúbio. A média anual de crescimento do PIB no período 1995/1996 será de ordem de 3%. É verdade que o aumento da população é hoje da ordem de 1,4% o que leva a um crescimento ‘‘per capita’’ de 1,6%, mas isso nos deixa com a aterradora perspectiva de só dobrarmos a renda ‘‘per capita’’ após 45 anos, ou duas gerações!
A brutal taxa de juros esmaga e desorganiza o processo produtivo. No caso do juro aos consumidores - a despeito da queda dos juros primários - ele ainda anda à volta de 7% ao mês, mais ou menos igual ao praticado antes da ‘‘crise asiática’’. Isto dá um juro anual de 12,5% que, combinado com uma inflação de 3%, produz um juro real de 120%. A explicação é que o juro básico ainda é muito alto, há generalizada inadimplência dos consumidores e os imensos compulsórios são uma tributação sobre o sistema financeiro que exige um ‘‘spread’’ significativo.
Sobre os investimentos o efeito dos juros é muito grave, porque 1) são poucos os projetos cuja taxa de retorno é maior do que o juro real, a não ser quando ele é subsidiado pelo BNDES e 2) os custos financeiros reduzem a margem das empresas e com elas suas disponibilidades financeiras e os investimentos.
Sobre o Governo, as taxas de juros produzem a destruição das finanças públicas e um aumento do endividamento que lentamente vai pondo em risco a sua sustentabilidade.
Sobre as exportações o efeito é múltiplo: 1) os altos juros instrumentalizam a valorização cambial e reduzem a taxa de retorno dos investimentos no setor; 2) reduzem a sua rentabilidade e 3) aumentam as incertezas de manutenção da política a longo prazo.
Sobre as importações o efeito é favorável: 1) elas ficam mais baratas e 2) podem beneficiar-se de financiamentos externos à taxas de juros civilizadas. Cria-se, assim, um viés anti-exportador, com a taxa de câmbio das importações mais favorável que a das exportações.
Os ‘‘juros escorchantes’’ levam assim, inexoravelmente, à redução do nível de atividade que é relevada nos dados dos últimos quatro anos. Por que tem de ser assim? Porque qualquer tentativa de acelerar o crescimento esbarra no aumentos do déficit externo, a despeito dos grandes aumentos de produtividade pela abertura comercial de 1990.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.

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