Antonio Delfim Netto

Moeda falsa
A propaganda do partido dos tucanos ocupou as emissoras de TV semana passada para nos informar, corretamente, que as taxas de inflação vigentes são as mais baixas dos últimos 50 anos. Na vigência da ética tucana seria ingenuidade esperar que o público telespectador fosse alertado para um outro formidável recorde: nunca, nos últimos cinquenta anos, os trabalhadores brasileiros sofreram taxas de desemprego tão elevadas quanto as anuais.
O programa partidário teve alguns momentos de delírio quando procurou mostrar um país em franco desenvolvimento, o que seria formidável se realmente estivesse acontecendo. Tenho comentado que os excessos da propaganda governista devem estar produzindo uma corrida aos consultórios psiquiátricos. O cidadão vê na TV um país onde tudo vai bem: as pessoas que deixam os emprego se tornam ‘‘prósperos empresários’’, investimentos estrangeiros ‘‘se multiplicam’’ trazendo mais e mais fábricas para o país; os níveis de reservas em moeda estrangeira ‘‘nunca estiveram tão altos’’; o salário mínimo ‘‘dobrou de valor’’ e assim por diante. Ele olha à sua volta, já cansado de procurar um emprego ou de ouvir histórias de parentes e amigos que perderam o seu colega e chega rapidamente à conclusão que está com uma visão muito defeituosa do mundo. A única saída é ir mesmo ao psiquiatra...
Há um excesso de propaganda enganosa, à qual se somam a complacência e até mesmo uma certa cumplicidade daqueles que deveriam exercitar o espírito crítico, economistas, empresários e jornalistas, notadamente. Quando tecem loas públicas pelo ‘‘extraordinário aumento das reservas cambiais’’ e fingem desconhecer que elas carregam um enorme custo para a sociedade, não estão, obviamente, respeitando seus leitores. Felizmente há exceções honrosas: recentemente o professor Álvaro A. Zini Jr., titular da Faculdade de Economia e Administração da USP, publicou na ‘‘Folha de S. Paulo’’ artigo sob o título ‘‘O custo das reservas’’, do qual me permito extrair esta magistral síntese: ‘‘O Brasil acumula 70 bilhões de dólares de reservas, não pelo fato de ter tido superávits em conta corrente, mas por manter a taxa de juros interna muito acima da taxas de juros internacional. Fazendo um cálculo simplificado, como a diferença entre a taxa de juros paga pelo governo em seus títulos e a taxa de juros de títulos do governo americano está em 18% ao ano, manter essas reservas custa ao governo cerca de 12,6 bilhões de dólares ao ano, ou quase duas vezes e meia arrecadação da CPMF. Não pense o leitor que esse custo não é pago. Ele é pago, em parte pelo BC, em parte pelo Tesouro, por meio do crescimento da dívida interna. A não ser que se julgue que a dívida pública não será paga, essa dívida maior significa que todos que pagamos impostos teremos que pagar mais impostos ao longo do tempo’’.
Como pode ver o leitor, é simples quando se conta a história toda. O programa tucano diz que o governo ‘‘está realizando profundas mudanças’’ e que ‘‘está construindo agora um radioso futuro para as próximas gerações’’, mas ‘‘esquece’’ de dizer: a) pode faltar dinheiro para a saúde dos brasileiros, mas não haverá carestia de juros para a banca internacional; b) preparem-se os cidadãos para a cobrança, em breve, de um segundo ‘‘imposto do cheque’’, em dose dupla!
Há todos os motivos para se comemorar o êxito extraordinário do combate à inflação e a saudável estabilização da moeda. Mas a propaganda não deve se transformar em moeda falsa, usada para poluir a discussão dos problemas do crescimento econômico, do desemprego e do aumento da vulnerabilidade externa.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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