Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
A arbitragem
e a graxa
Quem se interessa pelos problemas econômicos certamente reparou que sumiu da mídia e até mesmo das publicações acadêmicas o debate sobre a questão crucial do desenvolvimento. É um negócio intrigante porque, desde meus tempos de estudante e depois como professor de economia, os problemas do crescimento ocupavam uma boa parte do tempo dedicado à formação do economista além de produzir os debates mais acalorados nos meios acadêmicos.
Parece-me que os economistas modernos - uma boa parte deles pelo menos - perdeu de vista o verdadeiro desafio de nossa profissão. O problema do crescimento simplesmente desapareceu da cabeça da maioria dos estudantes formados em escolas americanas, por exemplo. Nos livros modernos de macroeconomia, as questões relativas ao desenvolvimento econômico ou estão ausentes ou aparecem apenas no último capítulo, em geral como apêndice. Pode-se terminar tranquilamente o curso sem ter tido nas mãos um texto que trate dos problemas de crescimentos de uma economia como a brasileira ou de quaisquer outras ditas emergentes...
As mais brilhantes inteligências treinadas lá fora se tornam especialistas em arbitragem e obviamente encontram a realização profissional nos mercados financeiros. Desenvolvem algumas características, como por exemplo uma ojeriza a chaminés de fábricas e a um certo tipo de empresário que teima em sujar as mãos de graxa. Aquele sujeito que insiste em produzir tecidos ou parafusos, que trabalha aos sábados e vive pedindo juros menores, que se preocupa com o competidor externo, que reclama do câmbio e ainda se queixa da falta de energia e do baixo nível de atividade da economia, é sem dúvida um chato. O que está em moda, especialmente nos gabinetes de Brasília, é o sujeito elegante, de gravata larga, que não suja as mãos de graxa, que vende papel no computador e vem aqui fazer duas coisas: elogiar as taxas de juros e advertir sobre o risco de reverter a expectativa favorável que existe lá fora, se por acaso deixamos de ouvir seus sábios conselhos...
Não tenho nada contra as pessoas que vão para o mercado financeiro e vivem de arbitragens, embora considere um desperdício que tantas inteligências estejam sendo absorvidas por essas atividades e não pelos problemas vitais do crescimento e da distribuição de renda.
A sociedade que investe na formação de economistas para que eles ajudem afastar as restrições ao crescimento. O que assistimos hoje, especialmente de parte dos economistas do governo, e a defesa de uma pseudodoutrina que nos diz que as restrições ao desenvolvimento devem ser aceitas sem muita discussão, como se fossem fatos da natureza, contra os quais é inútil lutar. E se elege a estabilidade da moeda como objetivo único da política, quando na realidade ela não é um fim em si mesma e sim uma das condições para a retomada do crescimento. Nossas escolas de economia têm que recuperar o problemas essencial de nossa profissão. Porque, para dizer que o desenvolvimento não é possível, não precisamos de economistas.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento





