Antonio Delfim Netto

A economia
e os grilos
Não imaginava que a afirmação que fiz num comentário anterior, mostrando que o desemprego é a verdadeira ‘‘âncora’’ do Plano Real, pudesse causar reações tão estapafúrdias de alguns funcionários governamentais. As reações mais pueris partiram dos ‘‘grilos falantes’’ do Banco Central que aparentemente acreditam que todos os brasileiros estão na idade de frequentar a Disneylândia...
Na semana em que a taxa de desemprego na Grande São Paulo atingiu o recorde de 7,2% da força de trabalho, o que significa 1 milhão e 470 mil cidadãos na rua da amargura, a sociedade é informada pelo expoente-mor do BC que ... ‘‘o fechamento de postos de trabalho em São Paulo, em tese, não deveria ter efeito líquido sobre o emprego mas afeta as estatísticas, porque a taxa de desemprego só inclui seis regiões metropolitanas. Não inclui o Ceará, por exemplo, que recebeu muitas indústrias’’...
Os índices recordes em São Paulo e nas outras cinco regiões mais industrializadas do país (e certamente também no Ceará) são produto da barbeiragem cambial que amarrou as exportações e o crescimento, gerando níveis inimagináveis de desemprego em todos os setores da economia. O governo tenta esconder da sociedade que o desemprego é produzido, na realidade, pela necessidade de reduzir a taxa de crescimento da economia brasileira. Há quatro anos ouvimos que ‘‘está havendo um extraordinário surto de progresso no Nordeste’’, fruto de migração de indústrias do Sudeste e do Sul para aquela região, o que é principalmente verdadeiro e ocorre pelas razões erradas. Uma boa parte dos investimentos anunciados não passa de propaganda enganosa. E, mesmo quando se realizam, não têm sido suficientes para reverter as curvas de desemprego crescente na própria região, seja na indústria, seja na agricultura ou setor de serviços. Para ser diferente é preciso acreditar que o Nordeste é um outro país, com política cambial própria, taxas de juros nos níveis internacionais e políticas agrária e fundiária de dar inveja à União Européia.
Nossos Phd formados na Disney insistem em afirmar que o desenvolvimento da economia brasileira na década dos 70 ‘‘foi inútil’’: crescer 10% ao ano, criando 15 milhões de novos empregos em 7 anos, conquistar mercados para nossos produtos no exterior, modernizar nossa indústria e abrir novas fronteiras agrícolas, ‘‘nada disso tem importância, foi apenas uma ilusão’’... A crise mundial dos anos 80 (com o petróleo a 34 dólares o barril e a taxa de juros externa em 21%) mostrou como estávamos ‘‘no caminho errado’’: perdemos a década! ‘‘Uma coisa é um choque externo que gera uma década perdida, queda do PIB e desemprego de 10% (sic) durante vários anos. Outra coisa é transpor uma crise internacional da dimensão da crise na Ásia, com um trimestre ou alguns trimestres de elevação do desemprego e alguma desaceleração do PIB, sem ter recessão’’... Realmente, é um prodígio enxergar uma ‘‘crise internacional’’ com o petróleo a 13 dólares e uma taxa de juros externa de 7% ao ano!
Alguns economistas brasileiros têm procurado explicar a posição de seus jovens colegas do Banco Central pelo fato de terem estudado em Universidades de Primeiro Mundo, o que justifica a atitude meio ‘‘snob’’ diante dos problemas do desenvolvimento brasileiro e da tragédia do desemprego num país ‘‘emergente’’. Não creio que esta seja uma boa explicação. Afinal, o que justifica nossa profissão é a promoção do crescimento econômico e do bem-estar. E a teoria econômica se aprende tão bem aqui como lá fora. Já o conhecimento da História é algo ao alcance de qualquer estudante universitário.
Sou mais levado a acreditar que gastaram o tempo no exterior frequentando a Disneylândia, em lugar das salas de aula...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.

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