Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
Desemprego
em cena
O desemprego é parte integrante da política econômica do governo, cujos fundamentos exigem que a economia cresça lentamente. Devido ao erro grosseiro na política cambial, o desemprego é, hoje, a verdadeira âncora do programa de estabilização. Quem não entender este fato, terá dificuldade em explicar o que acontece na economia brasileira.
A recente reunião ministerial para combater as causas do desemprego foi apenas uma encenação preparada para ocupar os noticiários da televisão. Ela não foi levada a sério nem mesmo pelos ministros que compareceram à granja do Torto, em Brasilia. Serviu, porém, para mostrar que o governo está preocupadíssimo, não com as causas do desemprego propriamente, mas com os efeitos que o problema pode causar no ânimo dos eleitores, na antevéspera da reeleição presidencial. Todos sabem, principalmente a equipe econômica, que não haverá retomada do desenvolvimento este ano no ritmo capaz de criar empregos para os brasileiros que chegam ao mercado de trabalho ou absorver os milhões de condenados à exclusão social em decorrência da armadilha contra o crescimento construída a partir da insensata política de câmbio.
Após a reunião do Torto, o governo admitiu que o desemprego só vai diminuir se o juro baixar. É preciso dizer, então, que os juros estão altos (e já eram elevadíssimos antes da crise na Ásia) porque é necessário manter a economia desaquecida. Se a economia começar rapidamente, as importações aumentam e não há exportações suficientes para pagá-las. Nestes três últimos anos, as exportações cresceram menos que as importações por causa da sobrevalorização do real, que tirou competitividade às nossas exportações e facilitou as importações. Entre 1994 e 1997 o governo desprezou todas as advertências e deixou passar inúmeras oportunidades em que poderia ter corrigido a política cambial. Preferiu acreditar que sempre poderia obter financiamento externo para o crescente desequilíbrio nas transações correntes. Só que isso teve um preço: precisou manter taxas de juros atraentes para os aplicadores externos, três ou quatro vezes superiores às dos demais países, sem se incomodar muito com a destruição que isso foi produzindo internamente. Arrasou parte da economia agrícola, reduziu a capacidade de competição do setor exportador (pela ação conjunta do câmbio e dos juros) e permitiu o fechamento de parte de nossa indústria textil, de calçados, de autopeças, de milhares de pequenas empresas e a dispensa de milhões de trabalhadores no campo e nas cidades.
Nossa economia se tornou refém do mercado financeiro internacional. Um susto no México (em 1995), outro recente na Ásia, resultaram em maior aperto na armadilha que impede o crescimento: somos obrigados a praticar a maior taxa de juros do mundo para acalmar os credores externos, reduzindo ainda mais o crescimento interno e ampliando os níveis de desemprego. Com o mercado inquieto, não podemos corrigir o câmbio nem baixar os juros porque corremos o risco de provocar uma corrida contra o real; sem corrigir essas duas distorções, não estimulamos as exportações nem promovemos o crescimento da economia.
O Plano Real obteve resultados extraordinários ao baixar as taxas de inflação e estabilizar a moeda, mas não foi capaz de criar as condições para a retomada do crescimento com equilíbrio interno e externo. Pelo contrário, há hoje um profundo desequilíbrio, ancorado perigosamente em altos níveis de desemprego.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro do Planejamento e Fazenda.





