Recente pesquisa de opinião encomendada pela Confederação Nacional da Indústria detectou uma sensível queda no entusiasmo popular em relação ao Plano Real. A maioria das pessoas entrevistadas (mais de 60%) já não espera receber benefícios do Real, e mais de 2/3 temem que o problema do desemprego se agrave. Não faz muito tempo, venerar o Plano Real era quase uma obrigação ‘‘patriótica’’. E revelava um tremendo mau gosto quem ousasse apontar um só se seus erros, especialmente o grave equívoco da política cambial. Por três anos o governo soube capitalizar o apoio popular às medidas que derrubam a inflação, evitando cautelosamente enfrentar os problemas decorrentes de sua política cambial que bloquearam o crescimento da economia e restringiram as oportunidades de trabalho dos brasileiros. O próprio debate destas questões sofreu uma espécie de interdição até que a explosão da crise asiática levantou a cortina de silêncio, o que permitiu que as pessoas começassem a perceber o tamanho da armadilha em que estamos aprisionados. As medidas que o governo foi obrigado a adotar da noite para o dia, dobrando a taxa de juros e aumentando a carga de impostos para enfrentar a crise externa, restringem ainda mais o crescimento e ampliam o desemprego, o que foi imediatamente entendido pela população que, evidentemente, detestou o ‘‘Pacote 51’’.
Desde 1994, quando se cometeu o equívoco da sobrevalorização do real, até meados de 1997, o governo teve inúmeras oportunidades de ajustar o câmbio. Nesse intervalo, o mercado mundial apresentou condições de excelente liquidez (com um pequeno período de excitação devido à crise mexicana) e a situação econômica interna favorecia o ajuste. O fato de não ter sido feito o ajuste é surpreendente pela demonstração da insensibilidade diante do agravamento das tensões sociais decorrentes do crescimento do desemprego nas cidades e na área rural.
O que me parece mais grave em toda essa questão é o abandono do objetivo do crescimento por um período tão longo, praticamente todo o mandato presidencial. Qualquer cidadão com razoável conhecimento da história econômica do Brasil sabe que o único fator que pode conter o nosso crescimento é o constrangimento externo.
Pois bem, neste três últimos anos, graças ao equívoco da política cambial, permitimos que se acumulasse um déficit de 70 bilhões de dólares nas contas externas. Em 1997, produzimos um déficit em conta corrente de 33,8 bilhões de dólares que, na escala mundial só ficou abaixo do déficit externo dos Estados Unidos. Tornamo-nos extremamente vulneráveis, remunerando o capital externo com as maiores taxas de juros do mercado, na crença que o mundo nos financiaria eternamente.
A margem de manobra para enfrentar o problema externo estreitou muito, na medida em que não podemos ajustar o câmbio enquanto perdurar a instabilidade nos mercados financeiros. A saída é ampliar as exportações, correndo contra o tempo e oferecendo subsídios de toda a natureza para que nossos exportadores se capacitem para enfrentar a competição nos mercados externos.
Hoje não se discute mais o papel das exportações para a retomada do nível de atividade e na alavancagem do crescimento econômico. Temos que gerar dólares para enfrentar o constrangimento externo. Sem eliminá-lo, não teremos condições de baixar os juros internos que, em última análise impedem o crescimento da economia e eternizam o emprego.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.

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