Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
O agito
asiático
A situação na Ásia continua complicada, com problemas sérios no sistema bancário da maioria dos tigres, agitando as Bolsas e produzindo repercussões pelo mundo afora, mas eu não vejo nenhuma consistência nessas previsões de um ataque especulativo sobre o Real. São palpites sobre coisas que podem acontecer e podem não acontecer.
O fato de a economia brasileira possuir as condições para sofrer um ataque não significa que vai haver o ataque. Nós temos o câmbio sobrevalorizado e um enorme déficit nas contas externas, o que nos tornou vulneráveis. É por essas razões que o governo está impondo à sociedade brasileira o sacrifício de conviver com uma gigantesca taxa de juros, que é a linha de defesa que lhe restou.
Tardiamente o governo reconhece que o déficit comercial é importante e que é preciso aumentar as exportações, enquanto procura controlar as importações. Como não corrigiu o câmbio quando devia, vai subsidiar as exportações pelas vias do crédito e fiscal. E, na prática, reintroduziu no país a licença prévia nas importações. É um caminho penoso para corrigir o desequilíbrio do comércio exterior porque, para reduzir o déficit para 4 ou 5 bilhões de dólares este ano, teve que impor mais restrições ao crescimento da economia, elevando impostos e juros. Reduz o crescimento do PIB a 1%, o que significa que vamos ter uma queda na renda per capita.
Entre julho e dezembro de 1977, um grande número de países aumentou sua taxa de juros real para responder aos movimentos cambiais. Acontece que o Brasil já sustentava a maior taxa de juros do mundo e sua duplicação amplia brutalmente os custos do ajuste, trazendo mais dificuldades para a sobrevivência das empresas e mais desemprego. Com uma taxa de juros real de 37% ao ano, inviabilizamos o crescimento de nossa economia e nos distanciamos da maioria dos países, como a Argentina que tem uma taxa de juros de 7%, o México que terminou 1977 com uma taxa de 1% ao ano, ou o Chile, com menos de 1%. O que se pergunta é porque precisamos de uma taxa de juros real cinco vezes maior do que a argentina ou a chinesa, 60 vezes maior do que a chilena e trinta vezes maior que a mexicana.
Não se trata de atirar pedras no passado, até porque o governo reconhece que o Brasil foi vítima de uma teologia econômica segundo a qual o câmbio valorizado aumentaria a produtividade e déficit em conta corrente não tinha importância porque sempre existiriam pacóvios suficientes no mundo para financiá-lo.
Admitido o erro, o que se espera é que o governo informe corretamente aos brasileiros as razões pelas quais a economia vai crescer menos este ano. Aparentemente, existe um tumulto deliberado nas informações: num momento, o governo anuncia que vai baixar a sua taxa de juros ao primeiro sinal de alta nas Bolsas asiáticas; em outro, condiciona a redução dos juros à aprovação das reformas no Congresso; e mais adiante, antecipa a discussão de uma segunda etapa de reformas, tumultuando ainda mais o processo.
A realidade é que a economia brasileira não convive com juros civilizados e isso acontece por que cometemos um equívoco no câmbio, que nos deixou vulneráveis às turbulências externas, o que significa que somos reféns do mercado financeiro internacional. As taxas de juros não voltam a níveis civilizados enquanto não se corrigir o equívoco no câmbio e o câmbio não pode ser corrigido enquanto durar a turbulência nos mercados. A armadilha se fechou e o custo disso é redução do crescimento, o aumento do desemprego e a destruição de uma parte do capital físico e humano do Brasil.
- ANTONIO DELFIM NETTO, deputado federal (PPB-SP), foi ministro da Fazenda e do Planejamento





