Antonio Delfim Netto

Sacrifício
desigual
O governo tem elementos suficientes para saber que o Pacote 51 retirou o apoio de uma boa parcela da população à sua política econômica. As primeiras pesquisas realizadas após o pacote mostram que a reação foi extremamente negativa, talvez porque as pessoas tenham percebido de imediato o quanto foi desigual a distribuição dos sacrifícios que as medidas impõem.
Esta percepção vem acrescida de uma sensação de insegurança quando as pessoas tomam conhecimento do enorme grau de vulnerabilidade de nossa economia em relação ao exterior. Isso ficou escondido há muito tempo graças ao poderio publicitário do governo que, numa larga medida, interditou o debate sobre as consequências de sua política cambial. E foi mais longe, ao cooptar apoios nos meios empresariais e na mídia para as ‘‘certezas’’ dos fundamentalistas do Banco Central, que não enxergavam nenhum risco no endividamento irreponsável que patrocinaram nos três últimos anos.
Qualquer objeção que se fizesse à política cambial era imediatamente contestada mediante a desqualificação do autor, inquinado de inimigo do Plano Real e da estabilidade. O Real obteve resultados brilhantes no combate à inflação, mas a política de câmbio foi um equívoco mortal. Por conta desse equívoco, impuseram-se sacrifícios absolutamente desnecessários aos setores produtivos, punidos com as mais altas taxas de juros do mundo, enquanto os mais largos benefícios eram garantidos ao setor financeiro interno e externo.
Durante todo o tempo, o governo se mostrou insensível diante do agravante do problema do desemprego e das dificuldades enfrentadas pela indústria e agricultura nacionais. Quando se procurou mostrar que as políticas de câmbio e juros estavam construindo uma armadilha contra o crescimento da economia e, portanto, restringindo o aumento da oferta de empregos aos brasileiros, a resposta da propaganda oficial era que ‘‘o desemprego é um fenômeno universal, derivado dos processos de modernização da economia’’.
O mais grave é que foram olimpicamente ignoradas as advertências quanto ao aumento do risco externo, que estava evidente diante do crescimento insuficiente das exportações e dos crescentes déficits da balança comercial e em conta corrente. Com uma autosuficiência maior que o bico de um tucano, dirigentes do Banco Central garantiam que as exportações cresceriam independente do que acontecesse com o câmbio; que as taxas de juros internas cairiam a níveis civilizados; e que não faltaria financiamento para cobrir os déficits do comércio e de pagamentos.
A turbulência nos mercados asiáticos demonstrou que essas afirmações eram fruto muito mais do voluntarismo do que de uma avaliação consequente. Desvendou o quanto estamos reféns do mercado financeiro internacional: a única defesa possível foi uma nova e cavalar elevação das taxas de juros de modo a satisfazer, provisoriamente, a gula do mercado. O aumento da carga fiscal e os cortes de pessoal e dos investimentos no setor público são uma garantia exigida pelos credores. A barragem publicitária lançada após o Pacote 51 não logrou impedir que a população percebesse que as medidas significam reduzir ainda mais a taxa de crescimento de nossa economia e a oferta de empregos aos brasileiros. Novamente, uma divisão ‘‘equânime’’ dos sacrifícios produzidos pelo equívoco da política cambial.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

mockup