Antonio Delfim Netto

Longo,
longo prazo...
Surpreendi-me há alguns dias com a declaração de um ilustre representante do poder executivo federal - que normalmente diz coisas sensatas - sustentando que o desemprego cairá naturalmente nos próximos anos, ‘‘até porque nossa taxa de crescimento populacional é declinante’’, o que certamente ‘‘compensará a menor oferta de postos de trabalho’’...Tenho comentado algumas vezes que notáveis economistas brasileiros parecem ter esquecido que nossa posição só se justifica se puder dar alguma contribuição ao desenvolvimento econômico. Por essa razão causou-me um não pequeno desgosto aquela afirmação, seguida de um inacreditável comentário: ‘‘qualquer imbecil sabe como fazer a economia crescer; só não sabe como sustentar o crescimento...
O governo, obviamente, não é composto de imbecis, mas a realidade é que não conseguiu entender que sua política produziu uma armadilha contra o crescimento econômico. Enredou-se numa política de ‘‘stop and go’’, quando as condições internas (estabilidade monetária) e externas (liquidez financeira e expansão comercial) favoreciam o desenvolvimento econômico. Graças à política cambial equivocada, o próprio governo criou o constrangimento externo que nos obriga a reduzir o nível de atividade, toda a vez que ele começa a crescer. Nos três anos e meio de Plano Real não achamos o rumo do desenvolvimento sustentado e não soubemos sequer aproveitar as condições extremamente favoráveis à retomada do crescimento.
A explosão dos níveis de desemprego é simples decorrência do fato de estarmos crescendo muito abaixo da capacidade de expansão de nossa economia. Temos potencial para um crescimento de 5% ou 6% do PIB anualmente e nos limitamos a crescer 2,5% ou 3% na média desses anos e ainda assim, aos solavancos. Com uma taxa de crescimento desse nível nossos trabalhadores estão condenados à miséria no curto prazo e a uma busca sem perspectiva de voltar a trabalhar no médio prazo. A eles de nada adiantará acreditar que, no futuro, seus filhos encontrarão emprego, ‘‘naturalmente’’, porque o declínio da taxa de crescimento populacional, demandará ‘‘menor oferta de postos de trabalho’’...
Os níveis de salário e a oferta de emprego melhoraram inicialmente com a estabilidade produzida pelo Plano Real. Nos últimos 20 meses, contudo, todos os dados apontam a queda generalizada da renda dos assalariados, a redução do número de trabalhadores empregados, o crescente endividamento das pessoas e das empresas e a falência dos programas sociais. É evidente que nem os salários nem a oferta vão se recuperar com o pacote restritivo ao crescimento econômico lançado neste final de 97. Às novas vítimas dessa política recessiva, enquanto o Longo Prazo não chega, restará repetir diante da tribuna imperial o brado dos gladiadores romanos: ‘‘Viva César, os que vão morrer te saúdam!
- DELFIM NETTO é deputado federal pelo (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.

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