Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
Novos rumos
A estabilidade vai bem; mas a economia vai mal. A não ser que se considere o desemprego um bem e o crescimento econômico um mal, não há como fugir à sentença. Nós estamos terminando mais um ano de crescimento econômico medíocre do PIB e temos pela frente a perspectiva de um semestre de menor crescimento ainda entre 1% e 2% do Produto. Sem crescimento não há oferta de emprego e não há expectativa otimista que se sustente. A realidade do mercado de trabalho é a seguinte: nunca a população jovem encontrou tanta dificuldade para conseguir emprego e jamais tantos trabalhadores maduros foram alijados no mercado de trabalho formal como nestes últimos quatro anos.
Ninguém ignora os benefícios da estabilidade. E ninguém também duvida que a população desejava ardentemente o fim da desordem inflacionária. As taxas de inflação foram reduzidas dramaticamente, o que proporcionou um ganho efetivo de salário no início do Plano Real e melhoria de padrões de consumo das classes mais pobres, exatamente aquelas que não tinham condição de defesa diante da erosão do valor monetário. Ao estabilizar a moeda, o programa cumpriu o objetivo de recriar as condições necessárias para a retomada do crescimento da economia e, portanto, de ampliação da oferta de trabalho que já deveria estar acontecendo. Por que motivo, após o brilhante resultado no combate à inflação, a sociedade se conformou com níveis tão medíocres de desenvolvimento, quando eram claros os sintomas de agravamento das tensões sociais?
O governo tem à sua disposição eficientes instrumentos de comunicação social e soube usá-los com competência. Na minha fraca opinião, abusando dos meios e economizando em matéria de ética. Numa larga medida o debate foi interditado, prevalecendo de forma avassaladora na mídia a visão social sobre quase todos os problemas.
Há inúmeros exemplos de questões cuja discussão foi descartada ou foi objeto de confusão deliberada. O caso da reforma tributária é um deles. A opinião pública foi convencida que o Congresso não se empenhou na reforma fiscal proposta pelo governo. Mas qual reforma? O atual governo nunca enviou qualquer proposta de reforma tributária ao Congresso. Após três anos de desinformação, só agora o governo está prometendo enviar (em fevereiro próximo) o seu projeto de reforma ainda em preparação pela equipe econômica!
Nos últimos 40 meses, quando se tentou mostrar o erro cometido na política de câmbio e os enormes custos daí derivados com a manutenção das altas taxas de juros, o governo produziu uma enorme massa de desinformação para demonstrar: 1) que a taxa de câmbio real valorizada gera um tal aumento de produtividade que logo compensará a queda das exportações; 2) que o déficit comercial não tem importância; 3) que financiamento do déficit em conta corrente não é problema, dada a alta credibilidade de nossa política no exterior; 4) que ninguém precisava adiar os investimentos por medo das taxas de juros porque elas cairiam, inexoravelmente.
O presidente costuma repetir que o Brasil tem rumo e que está a caminho da modernidade, o que não quer dizer grande coisa. A realidade é que o debate essencial, sobre os rumos da política que pode nos levar à retomada do desenvolvimento, deixou de existir. Ele continuará interditado enquanto o governo exercer seus poderes hegemônicos sobre a mídia. Em nosso pequeno espaço, vamos insistir: sem políticas que levem à retomada do crescimento, nenhum dos nossos problemas será resolvido. Mais do que slogans repetidos na mídia, o que nós precisamos é reabrir o debate sobre os rumos do desenvolvimento do qual nos afastamos todos esses anos. Sem prejuízo da estabilidade.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.





