Antonio Delfim Netto

Apertem
os cintos
Se existe uma diretriz rigorosamente obedecida pela social-democracia tucana, é a seguinte: ‘‘na hora da crise não hesite; chame os marqueteiros’’... Esta semana eles foram convocados para mais um lance de prestidigitação, qual seja o de convencer o povo que os ‘‘juros estão caindo!
No primeiro momento de nervosismo nos mercados financeiros mundiais, o governo cuidou de tranquilizar os credores externos com dois movimentos: dobrou as taxas de juros, garantindo um retorno de 33% no ‘‘dollar-coupon’’; em seguida baixou o pacote 51 para sinalizar o esforço fiscal necessário para neutralizar o impacto desta alta de juros sobre a dívida interna. No que diz respeito à área externa, os dois movimentos produziram o efeito esperado: estancaram a fuga de capitais, reduzindo o nível de intranquilidade dos mercados, pelo menos temporariamente. Tanto os credores externos como o governo sabem que é disso que se trata: ganhar um pouco mais de tempo, à custa de um tanto mais de juros. Quanto? Só Deus sabe...
No setor interno, o anúncio de medidas sinalizou o seguinte: ‘‘apertem os cintos porque aí vem turbulência; principalmente na classe econômica’’. A elevação nas taxas de juros e o aumento da carga tributária produziram um efeito devastador na imagem do governo. As pessoas intuiram rapidamente que na distribuição dos custos do ajustes colocaram no pacote do cidadão: aumento da insegurança no emprego, maior arrocho salarial, mais dificuldades de crédito; e juros privilegiados no pacote dos rentistas.
A indústria, a agricultura e o comércio, especialmente os segmentos de pequenas e médias empresas, não têm mais ilusões sobre o que as espera nos dois primeiros trimestres de 98. Há 42 meses os investimentos vêm sendo sufocados pelas maiores taxas de juros reais do mundo, o que restringiu o crescimento do Produto e comprimiu dramaticamente a oferta de empregos. A nova elevação dos juros, dobrando as taxas anteriores, vai comprimir ainda mais o nível da atividade econômica.
Gostaria de estar transmitindo aos leitores expectativas mais alegres, nesta época de festas. Não há como ilidir a realidade, porém. O governo errou fundamentalmente ao manter o câmbio fora do lugar por tanto tempo. Nunca se pôs em dúvida que o congelamento do câmbio era um importante fator coadjuvante no controle da inflação. O que se critica é a infantilidade da sobrevalorização cambial que, para se sustentar, exigiu dos brasileiros o sacrifício de conviverem com as maiores taxas de juros do universo. Neste três anos e meio fizemos a alegria do capital vagabundo e ‘‘globe-troter’’, acumulando um déficit em conta corrente de 75 bilhões de dólares, o que significa um setor externo frágil e vulnerável aos ataques especulativos. Como única defesa, restou apelar para uma nova alta nas taxas de juros, com um enorme custo social: vai reduzir a atividade econômica e ampliar ainda mais os níveis de desemprego.
É para camuflar essa dura realidade que o governo está convocando sua tropa de marqueteiros. Depois de elevar (da noite para o dia) a taxa básica de juros de 21% para 42% ao ano, o governo vai reduzir uns dois ou três pontos percentuais, fato que será saudado em inúmeros títulos de jornais e noticiários de televisão, mais ou menos assim: ‘‘Governo determina nova queda nas taxas de juros!...
Feliz 1998, mas continuem com os cintos apertados porque a aterrissagem não vai ser nada fácil...
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e Planejamento

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