Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
A armadilha
outra vez
O que preocupa o governo não é propriamente o desemprego que atingiu níveis nunca antes experimentados no Brasil. Não é também o corte explícito nos salários dos metalúrgicos da capital e do ABC paulista. O que levou o governo a se preocupar, finalmente, é o medo do problema que o desemprego pode representar para a reeleição do Presidente.
Nos últimos três anos, o debate sobre as verdadeiras causas do desemprego foi interditado pela vontade imperial que domesticou os meios de comunicação. Os poucos argumentos que conseguiam atravessar a barreira do silêncio eram imediatamente desqualificados, como nossos leitores devem recordar. Durante todo esse tempo só valeu a palavra do governo, ouvida em silêncio a por um empresariado acovardado e por um sindicalismo sem voz. Como foi possível aceitar passivamente o falso argumento que o desemprego é uma fatalidade do processo de globalização?
O governo não tem apenas economistas fundamentalistas em seus quadros. Tem bons economistas que desde o início do Plano Real sabiam que estavam assumindo uma aposta de alto risco. A aposta era a seguinte: com o câmbio sobrevalorizado e a abertura para as importações, os preços não sobem; com preços estáveis, o governo tem a maioria da população a seu lado; mesmo se as exportações não crescerem o suficiente para pagar as importações, sempre poderemos obter financiamento, desde que paguemos taxas de juros generosas aos investidores externos. Tudo bem, mas desde o início era evidente que essa aposta significava manter um baixo nível de crescimento da economia, com redução de oferta de empregos e ainda o aumento da vulnerabilidade externa. Como a prioridade número 1 do governo era a reeleição, a ordem foi acreditar que sempre haveria mais trabalhadores contentes com a estabilidade do que desempregados em desespero. Onde foi, então, que falhou a aposta?
A vulnerabilidade externa cresceu muito rapidamente. A dívida financeira, mais os investimentos direitos e as aplicações em Bolsas construíram um passivo externo próximo a 300 bilhões de dólares, que vai exigir remessas anuais da ordem de 23 a 25 bilhões de dólares, difíceis de reduzir. Com mais um saldo comercial negativo de 9 bilhões de dólares, temos um déficit em conta corrente que se aproxima do insustentável. Até seis semanas atrás, parecia que não haveria problemas de financiamento externo. A retirada de recursos provocada pelo tremor das Bolsas mundiais no final do mês de outubro revelou a insensatez da aposta.
A reação do governo, diante do estreitamento da liquidez externa, foi dobrar as taxas de juros para conter a fuga de capitais. A primeira consequência é que põe a economia no rumo da recessão. Precisa reduzir a atividade produtiva para conter as importações e tentar aumentar as exportações, porque não pode conviver mais com o atual nível de déficit externo. A perspectiva da redução do nível de atividade está levando as empresas a ampliar as listas de demissões, a suprimir o número de horas trabalhadas e a propor reduções salariais. Esses fatos mostram, mais uma vez, como funciona a armadilha contra o crescimento, construída a partir da sobrevalorização cambial desde o início do Plano Real. A outra vez que assistimos a armadilha funcionar foi por ocasião da crise mexicana, quando o governo aplicou na economia um freio brutal e uma enorme constrição de crédito, provocando falências no comércio, na indústria e na agricultura.
O governo tenta convencer os trabalhadores que não tem nada a ver com isso, que estamos sendo vitimas de uma ataque externo e, de novo, que o desemprego é consequência inevitável do processo de globalização. Não é nada disso. O que os trabalhadores estão sofrendo, outra vez, são as consequências dos enormes erros cometidos na política cambial nos três últimos anos.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP).





