Antonio Delfim Netto

Em busca do
tempo perdido
Duas semanas após, ainda persistem dúvidas sobre as causas que motivaram o lançamento do pacote fiscal, ou ‘‘pacote 51’’ como tem sido chamado em homenagem à famosa caninha. O governo não tem contribuído muito para esclarecer. Utilizou, na verdade, seu fabuloso arsenal publicitária para tentar convencer que existe uma ‘‘crise mundial’’, armada contra o Brasil. O fato de existirem países em dificuldades, especialmente na Ásia, se explica pelos erros que cada um cometeu na condução de políticas que deixaram vulneráveis suas economias. E nós, por que estamos vulneráveis?
Uma explicação razoável é que nos deixamos embriagar com o êxito do Plano Real. Abusamos da dose e do tempo. Depois de ter concebido e posto em prática um brilhante programa de combate à inflação, o governo dedicou-se à ‘‘compra do tempo’’, negligenciando o ajuste cambial o que produziu, sucessivamente: a alta das taxas de juros, o desestímulo às exportações, os déficits comerciais e em conta corrente, o crescimento das dívidas interna e externa e, afinal, nos levou a situação de vulnerabilidade que motivou o pacote. Não tenhamos dúvida que as 51 medidas adotadas atabalhoadamente e com enorme atraso, tem o objetivo de tranquilizar os credores externos. Estamos correndo para recuperar o tempo perdido, quando deixamos de fazer as mudanças institucionais visivelmente necessárias e insistentemente reclamadas. O resultado é que estamos hoje na seguinte situação: 1) nossa taxa de juro real é a maior do universo conhecido; 2) nossa taxa de crescimento econômico (talvez 3% em 1997 e 2% em 1998) é de um terço do crescimento possível com nossas possibilidades de fatores e gera desemprego crescente; 3) nosso déficit em conta corrente somará nos três anos deste governo mais de 70 bilhões de dólares, todo ele utilizado para consumo e não para investimento; 4) a dívida interna e o passivo externo líquido caminham de forma a dar alegria apenas aos que têm paixão pelo risco.
Todas essas dificuldades se remetem a uma só: ao fracasso de nossas exportações e à exuberância de nossas importações produzidas por uma arbitrária valorização cambial sustentada por duas charlatanices ideológicas vendidas como boa teoria econômica: 1) ‘‘o câmbio valorizado gera a produtividade’’, e 2) ‘‘no mundo globalizado sempre haverá um número suficiente de pacóvios para financiar qualquer déficit em conta corrente’’.
A primeira é manifestamente falsa. O que gera produtividade é a competição produzida pela abertura comercial, junto com condições econômicas para nossos trabalhadores e empresários e não o câmbio valorizado. Se ela fosse verdadeira, assistiríamos a uma sucessão de ‘‘valorizações competitivas’’ entre os parceiros comerciais, que elevaria a produtividade mundial e tiraria Terra de sua órbita. A segunda é hoje - até para os economistas e a imprensa chapa branca - uma piada de mau gosto.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.

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