Há duas semanas tive a honra de participar da homenagem prestada pela cidade de Londrina à memória de um dos mais importantes exportadores brasileiros e particular amigo, Horácio Coimbra. Ele foi um pioneiro e grande incentivador das exportações brasileiras de café solúvel. Como fundador e presidente da Companhia Cacique, abriu os mercados do Leste Europeu para o produto brasileiro, ‘‘descobriu’’ o mercado chinês e colocou suas marcas de café na maioria dos países industrializados, competindo com os gigantes americanos e europeus.
Horácio Coimbra foi um empresário no sentido clássico da palavra, disposto a abrir novos caminhos e a enfrentar os competidores na arena internacional, sem lhes dar trégua. Ele foi, também, um símbolo de uma época em que o exportador brasileiro era visto pelos governos e pela sociedade como uma espécie de herói nacional. Tempos que devem ser lembrados com certa nostalgia pelos empresários que hoje tentam exportar seus produtos e esbarram na ‘‘muralha’’ cambial erguida pela ilusão fundamentalista que até há poucos dias dominava a cúpula de nossa equipe econômica.
A ilusão acaba de ser desfeita graças à crise das bolsa mundiais, deixando à vista de todos a fragilidade de nossa política cambial, alicerçada numa montanha de ‘‘dinheiro vagabundo’’. Em pouco mais de 48 horas assistimos a fuga de capitais atingir 9 bilhões e 700 milhões de dólares. O único instrumento disponível para conter a sangria foi acionado: as taxas de juros básicas foram catapuladas do nível escorchante de 21% ao ano para 42%! Dobramos a quota de carne que vínhamos entregando às feras. Nesse instante os brasileiros devem ter compreendido com meridiana clareza o significado da expressão ‘‘reféns do mercado financeiro internacional’’...
A melhor demonstração de que estamos ‘‘caindo na real’’ foi a mudança radical no discurso de nossas autoridades econômicas. No anúncio do pacote fiscal, assistimos o Sr. Ministro da Fazenda reconhecer que a única coisa que realmente importa daqui para a frente é expandir as exportações. O governo constatou que não pode mais conviver com o buraco em conta corrente do tamanho de 75 bilhões de dólares que cavou nestes três últimos anos por conta da sobrevalorização do Real. Até então, o discurso oficial sustentava que os déficits do comércio exterior em conta corrente não ameaçavam a estabilidade econômica; que a queda das exportações não tinha importância; que a sobrevalorização cambial garantia tal aumento de produtividade (sic) que logo nossos produtos estariam em condições de competir com a vantagem no mercado internacional, invertendo o sinal negativo no comércio exterior; e que, portanto, não havia necessidade de ajuste na política cambial, ajuste reivindicado apenas por um bando de ‘‘exportadores chorões’’...
Obrigada a ‘‘fazer a lição de casa’’, a equipe econômica pela primeira vez adotou o discurso correto, demonstrando disposição de corrigir o dramático erro cometido na política cambial. Vai oferecer subsídios de toda a natureza para poder exportar, porque não dá para corrigir o câmbio enquanto durar a instabilidade nos mercados financeiros. Como também vai durar a alta dos juros enquanto não se tranquilizar a área externa.
A fragilidade revelada pelo movimento de queda nas Bolsas está servindo para mostrar quem são os verdadeiros ‘‘chorões’’, escondidos agora no fundo do palco, acocorados nas coxias... Talvez a instabilidade produza um resultado positivo, reconduzindo os exportadores à sua condição de heróis nacionais e, mais do que isso, à condição de salvadores da pátria.
Nosso Horácio Coimbra gostaria de saber disso.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP).

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