Antonio Delfim Netto
Há um sentimento amargo em relação ao pacote de medidas fiscais e à alta brutal dos juros. Mesmo as pessoas mais simples estão intuindo que as condições de vida vão piorar, que o emprego vai ficar ainda mais difícil e que aumentarão as dificuldades para pagar as contas domésticas. E se perguntarem porque essas medidas se tornaram necessárias de uma hora para outra, após terem sido embaladas durante quase três anos pela propaganda governista, que lhes garantia que a estabilidade não corria perigo e que jamais seriam surpreendidas, como no passado, com os pacotes econômicos...
No curto espaço de uma semana, o governo se viu obrigado a dobrar as escorchantes taxas de juros, de quebra, impingiu aos brasileiros um pacote de maldades embrulhado às pressas com medidas de duvidosa eficácia e muito mal-explicadas à população. Por que?
A elevação dos juros era o único instrumento disponível para tentar conter a fuga de recursos externos, excitados pela queda das bolsas e inseguros diante do fraco desempenho de nosso comércio exterior. A vulnerabilidade de nossa moeda diante de um ataque especulativo externo não é coisa recente. Não surgiu de uma hora para a outra nem tem sua origem na instabilidade das bolsas. Para não ter que citar-me, vou recorrer ao trecho de um artigo do ilustre ministro Ricúpero que, se não reclama a paternidade do Plano Real, com certeza estava na maternidade quando o bebê nasceu: Nossa vulnerabilidade aos choques especulativos provém, como se sabe, de um processo inacabado de reconstrução econômica. Para prevenir a volta da inflação, exageremos na dose dos juros e da valorização da moeda. A penetração das importações fez o resto, provocando o desastroso desempenho de nosso comércio exterior.
Várias advertências da mesma natureza foram feitas nos últimos dois anos, mas o governo preferiu bancar a incrível aposta dos fundamentalistas do Banco Central que sustentavam sandices como estas: É normal e saudável que o país tenha déficit em conta corrente ou é melhor ter déficit do que superávit ou ainda ter déficit grande não quer dizer nada de especial... O governo apostou todo o tempo neste tipo de insensatez. O câmbio sobrevalorizado e a queda das exportações não tinha a menor importância... A apostou e perdeu. Ou melhor, quem perde é a nação brasileira, são seus trabalhadores e empresários obrigados a sustentar níveis de taxas de juros que satisfaçam a gula dos especuladores internacionais.
O pacote fiscal é consequência e corolário da alta dos juros. O governo se viu na contingência de cortar gastos e arrecadar recursos para contrabalançar o impacto da elevação das taxas de juros sobre a dívida pública. Também aqui, o objetivo é tentar restabelecer a credibilidade externa, mostrando tardiamente que pode fazer a lição de casa. No exterior, o pacote foi bem recebido pelos analistas do mercado financeiro e certamente será bem visto pelo FMI.
Os trabalhadores e empresários brasileiros, no entanto, já intuiram corretamente que suas consequências são claramente recessivas. Daí o sentimento de amargura que as pesquisas de opinião já não conseguem esconder.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.





