Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
Ligeiro
equívoco
Os leitores que me honram com sua paciência devem estar lembrados das questões que discutimos aqui relativas à vulnerabilidade da economia brasileira vis-a-vis o exterior. O que parecia uma discussão acadêmica revela-se hoje um problema real, com sérias implicações na vida dos cidadãos, começando pela brutal elevação das taxas de juros que o Banco Central se viu obrigado a praticar. Elevou os juros porque não tinha alternativa diante da fuga de capitais das Bolsas para o exterior e da queda do nível das reservas cambiais. E por que não tinha alternativa?
O que nos deixou vulneráveis e sem alternativa foi o equívoco que se cometeu no início do Plano Real com a sobrevalorização da nossa moeda. A sobrevalorização do real reduziu a capacidade exportadora e estimulou importações, produzindo o desequilíbrio nas contas do comércio exterior e um déficit crescente em conta corrente. Esses déficits têm sido cobertos com recursos externos, cujo fluxo é mantido com a oferta de generosas taxas de juros e a garantia da âncora cambial. O equívoco é ainda maior porque os recursos externos estão sendo utilizados para financiar o consumo e não para aumentar a produção ou ampliar as exportações. É isso que torna a economia brasileira extremamente vulnerável e passível de sofrer ataques especulativos do exterior.
A queda das bolsas no exterior não deveria produzir nenhum efeito maior entre nós, a não ser um ajuste nas cotações. Algumas pessoas perderiam, outras ganhariam. As bolsas são um investimento de boa qualidade, quando consideramos períodos longos. Muitas vezes as cotações oscilam fortemente mas, se olharmos os grandes intervalos, os investimentos têm um rendimento em torno de 5% reais ao ano. Acontece que, após a grande queda de 1987, as bolsas vinham subindo continuamente, de tal sorte que esse movimento mereceu no final do ano passado a famosa advertência do presidente do Federal Reserve, sr. Alan Greenspan: segundo ele havia uma exuberância nacional nas bolsas, porque os papéis estavam oferecendo um rendimento de 40% acima do que normalmente oferecem. Não se pode alegar surpresa, então, diante do que aconteceu na última semana de outubro, quando a bolha começou a se desfazer na Bolsa de Hong Kong, atingiu Wall Street e chegou até nós.
Não está claro que nesses momentos houve um ataque especulativo sobre a nossa moeda. O fato é que os investidores estavam se desfazendo rapidamente de suas aplicações em nossas bolsas e isso afetou o nível das reservas. Para defendê-las, o governo usou o único instrumento disponível, a elevação das taxas de juros. A correção do desequilíbrio cambial - que se tivesse sido feita em tempo hábil teria reduzido nossa vulnerabilidade - não estava mais em causa nesses instantes.
O governo procura esconder esses fatos e diz que não é hora de cobrar os erros do passado. Tudo bem. Mas em nome da transparência, a população brasileira deve ser informada que vai pagar um custo ainda mais alto pelo equívoco: o juro básico dos títulos do governo passou de 21% para 42% ao ano e isso vai se espraiar para o resto da economia, dificultando a vida das pessoas, aumentando o desemprego, reduzindo a produção, constrangendo ainda mais o nível da atividade.
Nada disso tem a ver com o problema da votação das reformas no Congresso. A alta dos juros é a única solução que o governo tem nesse instante, mas é uma solução trágica que deve ser assumida por quem sustentou o equívoco do câmbio nesses três anos.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.





