Antonio Delfim Netto

Dívidas
e dívida
Talvez por influência da passagem do Dia de Santa Edwiges (16 de outubro), a imprensa andou recentemente agitando a questão da inadimplência. A TV apresentou testemunhos de cidadãos endividados procurando o amparo espiritual da padroeira em busca de saídas para o aperto financeiro. Numa das reportagens ouvi o apresentador dizer que a classe média se portou de forma imprudente ao se deixar levar pela euforia que caracterizou os primeiros meses do Plano Real. Usou demais o crediário, sem fazer as contas direito e sem pensar na possibilidade de ser afetada pela onda de desemprego.
É evidente que há casos de imprudência, mas a questão não se esgota nesse aspecto. É um fato estilizado que em programas de estabilização há um certo desemprego e há um aperto na classe média. O problema, que não me canso de apontar, é que houve um erro de dosagem que os gestores da política econômica se negam a corrigir. O câmbio foi fixado erradamente e gerou a necessidade de elevação das taxas de juros. Se isso tivesse sido corrigido num prazo razoável, até se poderia admitir que foi um mal necessário para o êxito do programa de estabilização. Acontece que já estamos no quarto ano de uma política que está destruindo o tecido social. O desemprego fere a fundo a organização familiar. A inadimplência generalizada é o sal aplicado ao ferimento.
Os 20% mais pobres da população tiveram um ganho de renda inicial, que depois se estabilizou. A participação dos salários na renda nacional vem caindo, puxada pela queda nos níveis de emprego. Os 40% que se consideram classe média não perceberam que estavam perdendo renda, porque havia a expansão do crédito. Mas o uso do crédito se esgotou.
São esse fatos que explicam o sentimento de mal-estar que vai se generalizando. A classe média responde por uma boa parcela de consumo. É ela que faz a opinião, que circula, que dá vida à sociedade e que está, visivelmente, empobrecendo. Estudos recentes mostram que a distribuição de renda voltou a piorar.
O mais grave é que, a par do empobrecimento presente, estamos comprometendo o futuro. O governo insiste numa política que restringe o crescimento da economia a magros 3% ao ano, mantendo 16% da população economicamente ativa sem oportunidade de colocação no mercado formal de trabalho, enquanto contrai no exterior uma enorme dívida que deverá ser paga pelas novas gerações.
A dívida externa brasileira já soma 180 bilhões de dólares e crescerá 20% este ano. O déficit em conta corrente dos últimos 12 meses é de 33 bilhões de dólares. A balança comercial segue deficitária em decorrência da política cambial, com as importações superando as exportações em 10 bilhões de dólares. Para financiar os déficits, estamos remunerando os investidores do exterior com taxas de juros internas muito superiores às que eles obteriam em seus mercados. E tranquilizamos os credores anunciando que temos 100 bilhões de dólares de patrimônio para vender no curso do programa de privatizações.
É um processo de endividamento absolutamente irresponsável, porque estamos gastando esse dinheiro em consumo! Quando terminar o patrimônio, ficará somente a conta das despesas. Nossa economia se tornou refém do mercado financeiro internacional. E o governo é refém do mercado financeiro nacional.
A classe média pode ficar tranquila. Em matéria de endividamento imprudente, nada supera a imprudência dos nossos atuais governantes.
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento

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