Antonio Delfim Netto

O patrimônio
e a dívida
O ministro da Fazenda, Dr. Pedro Malan, que normalmente faz declarações sensatas, reconheceu que nossa economia não tem condições de sustentar, por muito tempo, níveis elevados de déficits no setor público e no balanço de pagamentos. Segundo o noticiário enviado de Hong Kong para a ‘‘Gazeta Mercantil’’ pelos jornalistas Ivanir Bortot e Maria Clara R.M. do Prado, o ministro não demonstra preocupação quanto à evolução das contas externas no curto prazo, admitindo contudo que ‘‘seria melhor se os déficits fossem mais baixos; estaríamos menos vulneráveis em termos de percepção das contas externas e tivéssemos avançado mais’’.
Em Hong Kong se realizou semana passada a assembléia anual do FMI e Banco Mundial, quando ainda perdura no mercado financeiro um ambiente de apreensão quanto aos desdobramentos dos ataques especulativos às moedas da Malásia, Tailândia, Indonésia e Coréia do Sul.
Seria uma atitude irresponsável se nossas autoridades econômicas não se preocupassem com a possibilidade de um ataque especulativo à moeda brasileira. O real está sobrevalorizado, o nosso endividamento externo cresce muito rapidamente e está sendo utilizado para financiar consumo, e não os investimentos. O déficit comercial continua crescendo porque nossas exportações reagem preguiçosamente.
Não me incluo entre os que acreditam que o ataque é iminente e, nem mesmo, inevitável, mas, da mesma forma que o nosso ministro, vejo o tempo encurtar. Não se espera uma crise para amanhã ou depois de amanhã. Como disse um influente banqueiro internacional, o Brasil tem um enorme patrimônio para vender, que tranquiliza os investidores. Sob a ótica dos banqueiros credores, enquanto nós mantivermos a disposição de vender o patrimônio, não haverá maiores problemas com as contas externas brasileiras.
Na minha visão, a venda do patrimônio não oferece garantia suficiente contra a eventualidade de um ataque especulativo. Nosso déficit em conta corrente continua crescendo e sendo utilizado para cobrir gastos de consumo e não para investimentos. O déficit em si não é um mal; o ruim é a utilização que fazemos dele. Nem sequer o déficit é o problema mais importante. O que é mais grave é que as exportações não crescem e nós não estamos agindo adequadamente para corrigir isso. Se não estimularmos vigorosamente as exportações nossa vulnerabilidade aumentará rapidamente, gerando as condições para um ataque especulativo. De nada adiantará vender o patrimônio, porque ao final do processo estaremos sem patrimônio e com o enorme déficit para cobrir.
O Brasil tem tempo para realizar as correções que evitarão a crise. Mas não muito mais tempo. O que aconteceu com os países asiáticos mostra que os governos sempre imaginam que o tempo trabalha a seu favor, mas...
- ANTONIO DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, é deputado federal (PPB-SP)

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