Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto
Não é preciso
milagre...
Enquanto milhões de brasileiros realizam prodígios para sobreviver com alguma dignidade no campo e nas cidades, soa mal quando assistimos altas personagens do governo desculparem-se por não resolver tal ou qual problema porque o governo não faz milagres.
Não se espera dos governos que produzam milagres, até por que não existe efeito sem causa. O que se espera deles é que governem; não errem sempre; e, se possível, tentem corrigir rapidamente as causas dos erros cometidos ontem e anteontem.
O atual governo e seu antecessor (o que vem a ser quase o mesmo) cometeram erros dramáticos no tratamento dado ao setor agrícola. Estimularam o endividamento dos agricultores e em seguida deixaram de honrar o compromisso de garantia do preço-mínimo. Isso ocorreu em 94/95. Os preços agrícolas caíram 25% e o governo soltou rojões comemorando, nas cidades; a queda da inflação e a vitória nas eleições. Enquanto isso, no campo, um milhão de propriedades deixaram de produzir, a área plantada se reduziu em 2 millhões e 300 mil hectares e 400 mil trabalhadores rurais perderam seus empregos. Estimativas de organizações de cooperativas falam em 2 milhões de desempregados, mas eu fico nos 400 mil, que já é um mundaréu de gente. Uma parte desse mundaréu foi engrossar a legião de desempregados nas periferias urbanas e outros muitos estão pelas estradas, enfrentando os rojões mortíferos das polícias estaduais e invadindo propriedades.
Quem ficou no campo e planta ou cria é uma gente teimosa, que merece respeito. Ainda há 4 milhões de propriedades pequenas, médias e grandes que continuam produzindo. Todas foram atingidas no processo de descapitalização dos 2 primeiros anos do Plano Real, e poucos são os agricultores que não têm dívidas a saldar com bancos ou fornecedores. Muitos conseguiram se equilibrar no último ano, notadamente quem colheu soja e café, mas ainda não se livraram das dívidas. Quem recorreu à securitização ganhou tempo, mas se vê preso na armadilha dos juros e cobranças escorchantes, com os contratos vencendo agora no mês de outubro.
O presidente Fernando Henrique foi eleito pelo Plano Real e o Plano Real foi sustentado pelos agricultores: sendo, de novo, candidato, não deve desprezar a oportunidade de se redimir perante os eleitores rurais. Não precisa exorcizar o milagre dos anos 70, que já faz parte da história mal contada do Brasil. Pode mirar-se no exemplo um pouco mais distante, do Presidente Roosevelt, que salvou da ruína a endividada agricultura americana nos anos da grande depressão. Roosevelt utilizou na imprensa e nas rádios, seu enorme poder de persuasão para convencer os contribuintes de que os agricultores americanos não mereciam um triste fim nas mãos dos banqueiros credores Roosevelt foi reeleito 3 vezes...
Com seu invejável poder de comunicação, nosso Presidente convenceu rapidamente os brasileiros que o PROER era necessário, não para salvar os bancos, mas seus depositantes. Não terá problemas em obter o apoio da sociedade para uma cruzada de redenção da agricultura, livrando os nossos ruralistas de pecha de caloteiros com que foram estigmatizados em seu governo.
Está em exibição nas TVs uma robusta propaganda do governo anunciando que o Brasil mudou. Que tal começar, realmente, mudando de atitude em relação à agricultura?
- ANTONIO DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, é deputado federal (PPB-SP)





